Um dos motivos pelos quais as famílias brasileiras recusam a doação de órgãos e tecidos é a falta de conhecimento da vontade do parente que está com morte encefálica, afirma a presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), Maria Cristina Castro. No dia 27 o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, lançou campanha para incentivar a doação de órgãos.
De acordo com levantamento do Sistema Nacional de Transplantes (SNT) do Ministério da Saúde, 28,5% da famílias com potenciais doadores com morte encefálica no Brasil são contrárias à doação.
Por esse motivo, as últimas campanhas de doação realizadas pela ABTO (a mais recente termina neste domingo, 30) têm se baseado na importância de as pessoas conversarem sobre a doação de órgãos.
Segundo a ABTO, a principal causa da diminuição das doações é a falta de notificação da morte encefálica, que no Brasil é obrigatória. Esse problema é responsável pela perda de metade dos potenciais doadores. De acordo com o Ministério da Saúde, o número de doadores caiu de 7,3 por milhão de pessoas em 2004 para 5,4 milhões no primeiro semestre deste ano.
"O problema é a estrutura toda de saúde, e a gente sabe como estão sobrecarregados os nossos pronto-socorros, como faltam leitos de Unidades de Tratamento Intensivo, e como é difícil cuidar de uma pessoa que não tem mais prognóstico, quando estão nas filas de muitas pessoas que têm chance de sobreviver. É uma verdadeira "escolha de Sofia" [personagem de filme baseado em romance de William Styron, Sofia é uma mãe polonesa, presa num campo de concentração durante a Segunda Guerra, obrigada a escolher um de seus filhos para ser morto. Se não escolhesse um, todos seriam mortos] de quem está no pronto-socorro e na UTI", afirma a médica Maria Cristina.
Outra possível preocupação das famílias com a doação de órgãos é a questão religiosa. A ABTO, entretanto, afirma que nenhuma religião se opõe à doação, nem mesmo as Testemunhas de Jeová, que não aceitam a transfusão de sangue.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) cita uma carta escrita pelo Papa João Paulo II em 2005, na qual ele diz que a Igreja "encoraja a livre doação de órgãos, mas não deixa de ressaltar as condições éticas para tais doações, salientando a obrigação de salvaguardar a vida e a dignidade tanto dos doadores como dos receptores".
Existem no Brasil 71.152 pacientes em lista de espera para transplante, sendo 42.282 para órgãos sólidos, 26.793 para córnea e 2.063 para medula óssea. Veja, abaixo, o número de pacientes por órgão.
Coração | 335 |
Córnea | 26.807 |
Fígado | 7.036 |
Pâncreas | 167 |
Pulmão | 135 |
Rim | 34.098 |
Rim e Pâncreas conjugados (duplo) | 511 |
Medula Óssea | 2.063 |