Ex-vereador, ex-deputado estadual e ex-prefeito de Mogi das Cruzes por duas vezes, Junji Abe (DEM-SP) foi eleito com 113.156 votos recebidos em 367 dos 645 municípios paulistas.
Sexto deputado mais votado do seu partido, Abe vai cumprir seu primeiro mandato em Brasília e garante que o Brasil melhorou. "Está na hora dos brasileiros voltarem", disse ele em entrevista ao International Press.
Que motivos levaram o deputado a se candidatar pelo DEM?
Minha ideologia está em sintonia com a plataforma do Democratas (DEM), que consiste na defesa irrestrita da democracia, prezando a liberdade sob todas as suas formas, associada à descentralização do poder, com participação popular e eficiência da gestão pública, perseguindo sistematicamente o desenvolvimento sustentável, com prudência ambiental e justiça social. Tudo, com o objetivo principal de combater as desigualdades sociais e fazer da política a ferramenta para melhorar a qualidade de vida da população.
Já pertencia ao DEM (antigo Partido da Frente Liberal ou PFL) quando era deputado estadual. Meu retorno ao partido honra compromisso assumido em 1999. Conforme entendimentos com o, então, governador Mario Covas (PSDB), deixei o antigo PFL, hoje DEM, para abraçar o desafio de ser o candidato do PSDB à Prefeitura de Mogi das Cruzes, com total apoio do meu antigo partido à empreitada. O acordado era que a mudança partidária não fosse definitiva.
Tão forte foi meu compromisso moral assumido há mais de dez anos que, após ser eleito, reeleito e passar os oito anos como prefeito militando na família tucana, me senti no dever de honrar aquele entendimento junto a lideranças pefelistas e ao saudoso Mario Covas. Ou seja, retornar a meu antigo lar partidário que hoje se chama DEM. E assim fiz. Em função destes fatos, fui homologado como candidato do DEM a deputado federal, na coligação PSDB-DEM-PPS, com o número 2545. Nas eleições de 3 de outubro último, fui eleito com 113.156 votos em 367 dos 645 municípios paulistas.
Quais foram suas propostas para conquistar o eleitorado?
Destacarei as principais. Além de apresentar emendas parlamentares, de bancada e extra-orçamentárias (no caso de projetos específicos de grande porte e abrangência social) para liberar recursos financeiros aos municípios, meu objetivo é trabalhar na solução de graves deficiências estruturais que atingem todo o Estado e o País.
É o caso da Educação. Uma das batalhas prioritárias é a implantação do período integral nas escolas para garantir que crianças e adolescentes tenham ocupação saudável com atividades culturais e esportivas, associadas ao ensino de melhor qualidade, e longe das ruas onde a ociosidade vira convite ao mundo da marginalidade e das drogas. A outra é a oferta de cursos gratuitos de formação e qualificação profissional para jovens e adultos, de acordo com as exigências do mercado de trabalho, para ampliar as chances de conquista de emprego respondendo às demandas das empresas nas diferentes localidades.
No setor de Saúde, lutarei para garantir socorro imediato às prefeituras com dificuldades para manter, em adequado funcionamento, sua rede básica de saúde; aumentar investimentos para equipar e melhorar as unidades públicas de saúde que atendem casos de média complexidade; ampliar o Programa Saúde da Família; e viabilizar, junto aos governos federal e estadual, maior volume de recursos destinados a elevar a qualidade do atendimento em hospitais que recebem pacientes do SUS – Sistema Único de Saúde, como as Santas Casas.
Ainda visando à saúde pública, é fundamental muito investimento em medicina preventiva, garantir água tratada nas torneiras de todo brasileiro e o “Esgoto Zero”: 100% do esgoto coletado e tratado acabando com os despejos de detritos in natura nos rios – o que também combaterá a poluição das águas, beneficiando o meio ambiente.
Melhorar as condições da segurança pública é outra urgência. Meu objetivo é lutar pela execução de duas frentes simultâneas de trabalho. Uma tem caráter preventivo. Está calcada no aculturamento da sociedade e no resgate da educação familiar. Os pais da atualidade precisam saber pregar aos filhos o senso de responsabilidade, do que é correto, ético e moral. Antigamente, era assim. Aos poucos, a carga acabou transferida para os educadores que, na realidade, têm de cuidar da formação pedagógica do aluno. É vital recuperar o conceito da vida em família, fortalecido com a religiosidade – qualquer que seja a crença - para reaproximar o ser humano de Deus e formar cidadãos conscientes de seus direitos e deveres. O aculturamento é um trabalho árduo e demorado que exige o envolvimento dos agentes públicos e de lideranças comunitárias para atingir toda população. Por experiência própria, garanto que a comunidade atende o chamado e participa.
Outra frente de atuação consiste no aumento do efetivo da Polícia, maior estrutura, mais equipamentos e valorização dos policiais de forma geral, recompondo sua remuneração, extremamente defasada. Ainda nesta área, defendo a ampliação dos investimentos na polícia de fronteira e nas ações investigativas, visando o combate feroz ao narcotráfico que vem dilacerando o perfil da sociedade.
No campo da economia e desenvolvimento para gerar empregos e riquezas, defendo a já tardia reforma tributária e fiscal. É imprescindível diminuir a quantidade de impostos e a pesada carga tributária que incidem sobre as empresas e também sobre os trabalhadores. O aumento real da oferta de vagas de trabalho, assim como a oficialização do mercado informal, dependem obrigatoriamente da drástica redução dos tributos cobrados das micro, pequenas e médias empresas de todos os setores. São elas as principais responsáveis pela geração de empregos. Acrescento aqui meu compromisso de fiscalizar a correta e efetiva aplicação dos impostos arrecadados pelo governo.
Outro ponto crucial é garantir prioridade na implantação e recuperação de estradas de ferro para transporte de cargas e passageiros. O transporte ferroviário é quatro vezes mais barato que o rodoviário. Consumidor, agricultor, industrial, comerciante, pessoas de todos os setores produtivos arcam com custos cada vez maiores porque o Brasil está na contramão da logística mais adequada para os deslocamentos. Ainda sob o aspecto econômico, nosso País precisa seguir sua vocação agrícola. Isto significa implantar políticas de incentivo à policultura, engolida pelo setor sucroalcooleiro que se apossou das terras mais férteis. Se continuar este processo de monocultura, apesar da vocação agrícola, o Brasil se tornará um dos maiores importadores de legumes, frutas e verduras. Proponho a união das três esferas governamentais, com a ajuda de pesquisadores, técnicos e agrônomos, na identificação de culturas adaptáveis. Os itens, no mínimo cinco diferentes, seriam produzidos em pequenas propriedades, alicerçadas em sistemas cooperativistas. É preciso ainda que os financiamentos sejam justos, acessíveis e a longo prazo, haja seguro rural e garantia de preço mínimo, entre outros fatores. Adotadas tais medidas no campo econômico, não haverá motivos para preocupação com concorrência desleal no mundo globalizado.
A melhoria da qualidade de vida da população passa, forçosamente, pelo aumento do percentual da receita arrecadada que é destinada aos municípios. Os governos federal e estadual ficam com as fatias maiores do valor arrecadado – cerca de 60% e 25%, respectivamente. E as cidades sofrem com migalhas (em torno de 15%) para atender as justas demandas sociais. Sou municipalista e não aceito esta incoerência.
Defendo ainda a reformulação no sistema de aplicação mínima de recursos em educação e saúde, dentro do conceito de que o desenvolvimento deve se processar em nível regional para reduzir as enormes desigualdades sociais entre municípios vizinhos. Cada cidade tem de aplicar, no mínimo, 25% da receita corrente líquida em educação e 15% em saúde. Ocorre que há prefeituras com arrecadação tão elevada que não sabem mais onde investir para cumprir as determinações legais. Outras, ao contrário, amargam a falta de recursos para oferecer condições elementares de atendimento nestes dois setores. Isto acontece em municípios colados uns aos outros. Como exemplos, estão Barueri em relação à Carapicuíba, São Caetano comparativamente a Rio Grande da Serra e assim por diante. Tem de haver mecanismos que permitam a uma entidade como o Fundeb – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, por exemplo, apurar recursos excedentes em determinados municípios e aplicar em outros, de uma mesma região, onde há déficit de investimentos. A meta é corrigir distorções e combater desigualdades entre as cidades, proporcionando o desenvolvimento social e econômico das regiões para melhor atendimento à população.
Com a experiência de ter presidido a AMAT – Associação dos Municípios do Alto Tietê - por duas vezes, entendo que o desenvolvimento tem de ser regional. E não pode ser pensado de forma isolada. Por este motivo, nas minhas ações junto aos governos federal e estadual, quero ter sempre a meu lado os prefeitos, vereadores e lideranças dos municípios, que formam as diferentes regiões, para viabilizar a busca de interesses coletivos.
Outro assunto em que pretendo me empenhar é a efetivação de uma grande reforma político-partidária contendo, pelo menos, as seguintes medidas: fim da reeleição para cargos no Executivo e extensão do mandato de quatro para cinco anos; redução do número de partidos políticos para, no máximo, cinco; e implantação de eleições distritais para que o povo possa fiscalizar com eficiência e cobrar com rigor os parlamentares.
Vale frisar que nada disto se faz da noite para o dia. Exige muito trabalho e persistência com o respaldo da sociedade.
Outro compromisso que assumo é manter o combate voraz às invasões de terras praticadas, ao arrepio da lei, por movimentos como o MST que provocam graves consequências econômicas e sociais.
Como defensor incondicional da democracia que preza a liberdade, fraternidade e igualdade, mantenho-me a postos para proteger, com unhas e dentes, a imprensa livre, lutando contra quaisquer mecanismos que ousem amordaçar a livre expressão.
O deputado conhece bem a realidade da comunidade nikkei no Japão, já tem alguns projetos para ela?
Não conheço em profundidade. Contudo, não posso dizer que desconheço, já que fiz duas viagens recentes ao Japão, liderando comitiva oficial de Mogi das Cruzes, nos anos de 2001 e 2007.
Entidade pública de uma província japonesa - Ibaraki - fez denúncia de que empregadores estariam trazendo mão-de-obra brasileira ao Japão e deixando a que já está aqui desempregada. Que fazer para combater essa prática?
Não conheço o caso. Preciso me inteirar para opinar com propriedade. Entretanto, tal situação se deve ao fato de ainda haver nikkeis com a ilusão de que trabalhar no Japão é a melhor forma de ganhar dinheiro. Isto não é verdade. No Brasil, já estão sobrando vagas de trabalho para mão de obra qualificada. Daí, nossa proposta de garantir a oferta obrigatória de cursos profissionalizantes gratuitos, nas diversas áreas e em sintonia com as demandas do mercado.
Um dos planos do Conselho Nacional de Imigração seria cadastrar os empregadores de mão-de-obra do Brasil para o exterior a fim de evitar que o brasileiro fique desprotegido caso perca o emprego fora de seu país. Como o deputado vê essa possível medida?
Vejo como avanço. Mas, enfatizo que minha missão, como homem público, é fazer com que não haja necessidade de brasileiros terem de ir para o Japão como dekasseguis. Digo isto porque, após 16 anos de estabilidade, o Brasil está melhorando vertiginosamente, sob os aspectos econômico, social e financeiro, o que significa maior geração de empregos e renda.
O que o deputado acha de iniciativas do governo brasileiro como a Casa do Trabalhador em Hamamatsu e o Conselho de Representantes de Brasileiros no Exterior (CRBE)?
São boas medidas para proteger dekasseguis no exterior. Oxalá a maioria volte ao Brasil sem necessidade de recorrer a elas.
A quarta geração de nikkeis no Brasil não consegue o visto para vir ao país trabalhar como as gerações anteriores (nissei e sansei). Há como resolver esse problema?
Mais uma vez, repito: meu objetivo é batalhar muito para que nenhum brasileiro seja obrigado a trabalhar fora do País, suportando todos os ônus e humilhações de mão de obra de pouca ou nenhuma qualificação, para garantir seu sustento. Seja no Japão, na Comunidade Européia, nos Estados Unidos e em qualquer outro lugar fora do Brasil.
Os filhos de pais brasileiros que nascem no Japão não conseguem a nacionalidade japonesa, mas vem sendo educados como japoneses em escolas japonesas. Grande parte deles não fala o português? Erram os pais, erra o Japão em não aceitá-los como japoneses ou não há ninguém errado nessa história?
Errou o Brasil, com a alta inflação de 20 anos – de 1975 a 1994 –, que desequilibrou as estruturas sociais, econômicas e financeiras do País, ocasionando o fenômeno dekassegui. Graças a Deus, isto ficou no passado. Após 16 anos de estabilidade econômica e política no território brasileiro, meu desejo é que, gradativamente, as pessoas voltem ao nosso querido Brasil. Antes que a situação se agrave, até por conta das incoerências quanto à nacionalidade e educação das crianças, as famílias precisam voltar ao Brasil que já tem condições de recebê-los.
Nossos jovens no Japão ainda são recordistas em determinados tipos de crime como arrombamento e roubo de carros. No Brasil, era difícil termos notícias de nikkeis envolvidos com crimes. O que teria acontecido?
Não se assuste não. Aqui no Brasil, principalmente nos últimos 20 anos, há muitos nipo-brasileiros cometendo delitos de toda ordem. Isto se deve ao elevado índice de criminalidade, impulsionado pelos desequilíbrios econômico-sociais de outrora e, principalmente, ao crescimento do narcotráfico. Por este motivo, defendo como uma de minhas principais bandeiras, o período integral nas escolas para crianças e adolescentes. Já está provado que o tempo ocioso vira convite ao mundo das drogas e da marginalidade. Temos de trabalhar fortemente tanto na prevenção da violência quanto no combate da criminalidade, especialmente do narcotráfico, como já descrevi.
Os dekasseguis se tornaram imigrantes?
Espero que não. Como brasileiro, entusiasta deste País, me incluo entre aqueles que fazem tudo para que a trágica inflação não volte, o desenvolvimento avance mais e os brasileiros retornem ao Brasil.
Os brasileiros que retornam ao Brasil estão tendo apoio do governo e da comunidade nikkei?
Sim. Temos instituições como o Sebrae – Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas - e muitas associações nipo-brasileiras que prestam ajuda aos nikkeis. Evidente que não basta e é preciso ampliar este respaldo. A readaptação, queira ou não, é um desafio a se enfrentar. Contudo, vale frisar, é uma missão muito mais fácil do que aquela enfrentada pelos imigrantes japoneses no passado. O País está em franco desenvolvimento e todos os dekasseguis têm algum membro da família no Brasil. Mesmo desajustados por causa dos anos em que ficaram distantes da Pátria, falam português, conhecem a culinária, a cultura, enfim, tem familiaridade com a vida e as coisas do Brasil. Portanto, a readaptação ocorre em circunstâncias e com fatores muito favoráveis, podendo se efetivar em curto espaço de tempo. Por mais que Japão, EUA e alguns países da Europa apresentem índices e avanços tecnológicos melhores que os do Brasil, não existe país no mundo onde o povo seja multirracial e a sociedade conviva sem discriminação de ordem racial, de cor ou de credo. O que ainda existe aqui é a desigualdade social que tende a diminuir cada vez mais, à medida que avança o desenvolvimento sócio-econômico. Ressalto também que não há no planeta um povo tão solidário e hospitaleiro como o brasileiro. Eis mais uma razão para que todos voltem ao Brasil.
Então o Brasil melhorou? Está na hora de voltar ou ainda falta muito?
Melhorou muito. Está na hora dos brasileiros voltarem. Mesmo porque, além de todos os outros motivos, com o real valorizado, praticamente sumiram os benefícios financeiros de se trabalhar no exterior como mão de obra sem qualificação. Afinal, a conversão do iene, do dólar ou do euro para o real, já não traz as vantagens que havia na época em que a moeda brasileira estava totalmente desvalorizada no mercado mundial.