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Dielle no orfanato Meninas da Índia, em Nova Délhi
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Em agosto deste ano, a brasileira Dielle Cristina Saga, 25, iniciou uma campanha para arrecadar material didático para doar a um orfanato na Índia e recentemente realizou seu objetivo ao embarcar para Nova Délhi (capital da Índia). No dia 10 de novembro partiu com três malas carregadas de doações da comunidade brasileira.
O orfanato é administrado por um casal de brasileiros (que prefere ficar no anonimato) com três filhos. Eles renunciaram à vida social e profissional, para abrir a instituição Meninas da Índia, em Nova Délhi, após constatar, em uma viagem ao país, que havia necessidade de criar um abrigo para crianças do sexo feminino. Atualmente o orfanato conta com 11 meninas, na faixa estária dos quatro aos 15 anos.
As meninas do orfanato foram rejeitadas ao nascerem. Em meio à pobreza, muitos pais chegam a matar as meninas quando ainda são bebês, pois sabem que não terão dinheiro para pagar o dote delas quando crescenrem.
"Quando cheguei, cumprimentei uma por uma, elas sorriam e perguntavam de onde eu era. Foi cativante. Levei roupas e material didático que foram doados por brasileiros de diversas regiões do Japão, de Aichi a Ibaraki", diz agradecida. "Levei mais de 30 kg de bagagem e entreguei para o orfanato fazer a distribuição e elas já começaram a rabiscar nos cadernos. Ficaram felizes".
O objetivo do orfanato é dar educação para as crianças até se formarem ou casar e seguirem um rumo sozinhas.
Até o final de janeiro, Dielle gostaria de comprar aparelhos eletrônicos, violão, teclados, para enviar para o orfanato. Se não conseguir viajar novamente, estudará uma maneira segura de enviar a mercadoria por um sistema de entrega.
"Acredito que foi Deus que colocou em meu coração essa vontade de ajudar as crianças carentes da Índia, porque elas necessitam de atenção e carinho. Gosto da Índia e da sua cultura e quando lá cheguei, era como se já tivesse vivido lá antes", conta.
Dielle conta a seguir as impressões sobre o país que ela admira, mas reconhece ser muito diferente se comparado ao Brasil ou Japão:
"Falta de higiene - Me surpreendeu a sujeira. As pessoas defecam em qualquer lugar, à luz do dia. Os homens andam com uma garrafinha e se limpam com a mão, pois não carregam papel higiênico. Os mictórios públicos são para homens e não há para mulheres.
Sociedade de castas - O próprio povo indiano não ajuda um ao outro. Eles obedecem as castas. Por mais miserável que seja uma pessoa, ela aceita essa vida porque nasceu em uma casta inferior e assim morrerá.
Direitos da mulher - As mulheres não têm direito a nada. Pode ser casada, mas é comum o marido dar acariciar algum amigo na frente dela. É comum ver dois homens se acariciarem em público, ou de mãos dadas, sem que sejam homossexuais. Não se vê marido e mulher de mãos dadas nas ruas. Se for de uma casta mais elitizada, elas até saem nas ruas e dirigem carros, mas são as últimas a comer na mesa, se sobrar.
Família com rato - Visitei uma família muito hospitaleira. Lá, eles servem o que tem. Se tiver só água, servirão água. Na hora da refeição, passou um rato. Mas me avisaram que tinha mais e passaram outros quatro. A família convive com ratos pois acredita que na vida passada aquela casa pertencia aos ratos.
Vaca sagrada - Animais têm mais direitos do que o próprio ser humano. Não se vê ninguém atropelando uma vaca pois ela é sagrada. Se fosse uma criança, é bem provável que fosse atropelada.
Sem orfanato - Muitas crianças de rua comparecem no orfanato para receber almoço. São malvestidas e maltratadas porque são da casta Dalit (a mais inferior) e a elas só resta voltar à realidade das ruas depois de comerem algo oferecido pelo orfanato.
Construção - Os que trabalham em construção vivem como ciganos, e são considerados um pouco superiores aos que recolhem lixo e limpam banheiros. O mais dolorido de ver é que muitos adolescentes poderiam estar nas escolas, mas trabalham dia e noite em construções e, na maioria, são as mulheres que pegam no pesado.
Mais miserável que o Brasil - Acredito que a Índia seja mais miserável que o Brasil. Uma criança no Brasil tem a oportunidade de ir para uma creche. Mas na Índia, quem nasce Dalit não tem esperanças e fará o serviço de retirar fezes das ruas e carregar na cabeça dentro de uma lata.
Aos brasileiros - Hoje valorizo o Japão sob todos os aspectos, aqui existem mais oportunidades, embora mulher ganhe pouco em alguns lugares. Nós, brasileiros no Japão, vivemos nas nuvens em relação ao Terceiro Mundo."