Aichi


Publicado em  03/02/2007 1:29

O Brasil que vive em Danchi

O Homi Danchi, de Toyota (Aichi) tem 64 edifícios e 5.500 moradores brasileiros

Tokai , Aichi - Danilo Nuha/ipcdigital.com

Danilo Nuha/ipcdigital
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O Homi Danchi tem 2.328 apartamentos, com três a cinco quartos em cada um

"Se você pretende escrever uma matéria sobre isso vai precisar de bastante tempo. Os personagens são muitos e a história é longa demais", disparou Manuel Oliveira, 35, um dos mais de 5.500 moradores brasileiros que vivem no conjunto habitacional Homi Danchi, onde está a maior concentração de brasileiros do Japão.

Desde 1998 residindo no local, Oliveira tinha toda razão. Para percorrer os 67 prédios, conversar com antigos e novos moradores, síndicos, administradores, comerciantes e até visitantes (como foi o caso de algumas pessoas que estavam no local somente por causa do supermercado brasileiro), a reportagem levou exatos três dias e uma noite para tentar descrever, pelo menos, uma parte dessa que é considerada pelos moradores, "o pedaço mais brasileiro do Japão".

O Homi, como é conhecido, começou a ser construído em 1975 e foram necessários dois anos para que a obra fosse concretizada. Localizado em Toyota (Aichi), o conjunto é dividido por duas administrações, o Kodan, com 42 prédios da Agência Nacional de Replanejamento Urbano (UR Toshi Kiko), e o Ken-ei, que controla 25 edifícios pelo governo de Aichi, juntamente com algumas instituições que possuem direitos sobre o imóvel.

Hidetoshi Hishinuma, 67, o Karioka, é um dos moradores mais antigos no conjunto habitacional, e muita gente diz que ele é uma espécie de representante informal do conjunto. "Sempre morei no mesmo apartamento esse tempo todo. Quando cheguei aqui a maioria dos moradores era japonesa, mas hoje acredito que os brasileiros já são quase 70%", comenta Hishinuma, que trabalha com transportes, mudanças e turismo. Ele conta que a convivência no Homi Danchi já foi bastante complicada. "Teve uma época em que vivia tendo brigas entre gangues de japoneses e brasileiros aqui dentro mesmo. Outra coisa preocupante era o índice de roubos. Isso fez com que muita gente se mudasse daqui, sobretudo os japoneses", lembra.

Segundo Karioka, atualmente a situação está bem mais tranqüila. "O único problema ainda continua sendo o barulho e a questão do lixo, mas nada que se compare com o ambiente de dez anos atrás. Já aconteceu de ter lixo ocupando a vaga de quatro carros, aí chegava alguém mais indignado e colocava fogo em tudo. Era um caos", diz o morador. Apesar de ser chamado de Karioka, Hishinuma nasceu em Araçatuba (SP), mas morou muito tempo no Rio de Janeiro, onde nasceram seus filhos. "Eu gosto muito do Homi e por enquanto não penso em ir embora. Aqui já fiz meu ambiente", explica.

Quem está há quinze anos e não pensa em ir embora tão cedo é Dora Hatanda, 53, ou Dora Star, como é conhecida entre os moradores. Dora é a primeira costureira a montar um negócio próprio no conjunto. "Comecei fazendo lingeries para mim porque comprar aqui (Japão) era difícil, mas a notícia se espalhou e quando percebi já não estava mais dando conta do recado. Então, aluguei um apartamento só para produzir minhas próprias peças", revela. Ela conta que a sua especialidade é alta-costura, como confecção de roupas para casamento, festas e formaturas. "Agora eu já me acostumei, porque tenho meu próprio negócio e meus filhos moram por perto. Mas teve um período em que a coisa estava brava para os brasileiros. Teve japonês que fez até abaixo-assinado para tirar a gente daqui. Hoje em dia a convivência não é muito amigável, mas está bem melhor", completa.

Comércio familiar

Alguns moradores fazem de seus apartamentos o local de trabalho. A reportagem teve acesso a essas moradias que se transformaram em salões de cabeleireiro, centros de estética, lojas de produtos brasileiros e até cartomantes.

Do lado de fora, aparentemente, é um apartamento normal. No entanto, ao adentrar no ambiente, a impressão é a mesma de quem está numa simples loja.

O espaço alugado por Christiane Moura dos Santos, 31, que vive no Homi desde 1992, por exemplo, se transformou em salão de beleza.  Há um ano, ela conseguiu montar o próprio negócio em casa. Christiane conta que, no início, o seu único medo era ter problemas com os vizinhos, por causa do barulho da campainha, que tocava o dia inteiro. "Mas depois que eu coloquei um aviso na porta: entre sem bater. Os problemas acabaram", acrescenta ela, que já havia trabalhado durante um ano numa pedreira.

Novos moradores

Na época que ainda morava na cidade de Sorocaba (SP), Cláudio da Silva, 35, já sonhava em conhecer o Japão. A oportunidade surgiu há pouco mais de um ano, quando Silva foi chamado para ser professor de biologia na única escola que funciona dentro do Homi. Quando soube que iria morar e trabalhar num conjunto habitacional, Silva não imaginava nada parecido com o Homi Danchi. "Eu sabia que haviam muitos brasileiros, só que isso realmente me surpreendeu. Pois aqui tem tudo o que se precisa para viver, a minha adaptação está sendo bastante tranqüila. Digo até que, por enquanto, nem tenho planos de voltar ao Brasil", admite.

Outro que também chegou faz pouco tempo no local é Cleocir Kozlowiski, 30, natural de Araucária (PR). "Lembro que há um ano, quando minha esposa disse sobre esse conjunto, eu pensei que iria conviver somente com japoneses. Mas todos os meus vizinhos são brasileiros". Ao contrário de Silva, o paranaense descendente de poloneses diz que pretende ir embora assim que conquistar seus objetivos. "Apesar de estar bem em Toyota, ainda tenho muitas saudades do Brasil", revela.

Uma grande cidade

Uma das coisas que mais atrai a atenção de quem visita o Homi Danchi é o comércio que se estabeleceu no local. De olho na clientela brasileira, a "cidade" possui agência de correio, churrascaria, loja de produtos brasileiros, academia, quadra de esportes, escola de música, locadora, padaria, lanchonete, salão de beleza, agência de turismo, supermercado, creche e até escola bilíngüe (português e espanhol).

 

 

 


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