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Publicado em  17/07/2011 23:05

Para o presidente do CRBE, “crianças e idosos são prioridade”

Segundo Carlos Shinoda, 20 mil brasileiros no Japão estão na faixa dos 60 anos. A maioria não contribuiu com a previdência

/ Marcy Costa/Vitrine

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"Eu sou presidente do Conselho que representa três milhões de brasileiros no exterior e não posso favorecer quem está no Japão, mas é fato que tenho a oportunidade de levantar as questões dos problemas que temos e dizer que nossa situação não é bem como muitos pensam", afirma Shinoda

Atual presidente do Conselho de Representantes de Brasileiros no Exterior (CRBE), Carlos Shinoda nasceu em Cachoeiras de Macacu (RJ). É formado em Pedagogia e Computação, fez parte da Pastoral da Juventude da Igreja Católica, da criação do Sindicato dos Profissionais de Processamento de Dados e sempre esteve envolvido em questões de desenvolvimento social.

Chegou ao Japão em 1993 e desde então desenvolve atividades relacionadas à educação. Idealizou e coordenou os projetos Mutirão da Educação e o supletivo à distância, CETEBAN, foi professor da JICA e responsável pela implementação dos cursos de graduação da Universidade Católica de Brasília no Japão.

Em 2009 foi escolhido, a pedido da Embaixada do Brasil em Tóquio, como representante da Network Nacional de Brasileiros no Japão (NNBJ) para participar da II Conferência Brasileiros no Mundo. Confira a entrevista concedida para a edição de junho da revista Vitrine.

VITRINE: Como aconteceu sua candidatura a deputado federal em 1998?

CARLOS SHINODA: Sempre estive ligado a questões sociais e minha consciência social e política já vinha de algum tempo. Em 1998, por acaso, tive a oportunidade de sair como candidato. Durante uma visita ao Brasil, conheci o Paulo Maluf e, mesmo que até então eu sempre estivesse ligado ao movimento de esquerda, naquele momento eu entendi que era importante exercitar o meu outro lado, o direito que todos temos de ser candidato. Senti que deveria entrar naquele processo mesmo sem ter a mínima condição de ser eleito.

V: Por quê?

CS: Depois de tanto tempo fora do Brasil, de ter toda a base do meu trabalho no Japão, com prazo de dois meses para fazer uma mobilização, sem recursos e sem contatos no Brasil, qual era a possibilidade de eu ser eleito?

Mas consegui mostrar aos brasileiros no Japão que, se nós quisermos, temos condições de eleger três, quatro ou cinco deputados federais no Brasil, mesmo não votando. Imagine, quando nós pudermos votar... Nós temos hoje, por baixo, cerca de 270 mil brasileiros no Japão, 70% de SP, então podemos considerar 100 mil eleitores. Se, em um processo de conscientização, 10 mil desses pegam o telefone e indicam para dez pessoas no Estado de São Paulo um candidato que tem compromisso com a comunidade, nós conseguimos 100 mil votos.

Na época meus 150 alunos fizeram isso e eu recebi quase quatro mil votos. Para ser eleito pelo PPS eram necessários cerca de 70 mil votos. Se eu fosse afiliado do partido do Enéas, teria sido eleito com 700 votos.

Nós temos uma força sim, basta a gente querer.

V: E você conseguiu o apoio da comunidade japonesa no Brasil na época?

CS: Ninguém me deu bola, era época da Copa do Mundo e fui procurado por alguns senhores de uma associação, que chegaram me chamando de “deputado” e pedindo prêmios para um evento. Eu respondi com todo respeito que era por isso que os políticos não faziam nada. É uma barganha!

Eu dizia para eles na época que era muito importante, antes de comemorarmos os 100 anos da imigração, que levássemos a questão da aposentadoria dos imigrantes para que o governo japonês pudesse conceder esse direito. Mas alguém me escutou? Não. Queriam que eu, com um fusca velho, telefone alugado e material de campanha produzido gratuitamente com a ajuda de amigos, fornecesse televisores a serem distribuídos como prêmios.

E ainda teve gente achando que eu ganhei um milhão de dólares, que fiquei rico com doações recebidas de empresas para a campanha... Se eu tivesse dez mil dólares na época eu teria ido embora pro Brasil. Depois disso, sempre que ouço muita reclamação sobre os políticos, questiono: “por que você não se candidata?”

V: E o que te levou a se candidatar ao CRBE?

CS: Quando aconteceu a assembleia da NNBJ – para escolher o representante que participaria da II Conferência “Brasileiros no Exterior” – eu estava muito desgostoso com a situação econômica, com tudo que acontecia na época e disse que não queria. Desde 2006, quando abri minha escola, que fica debaixo de um viaduto em Nagoya, eu tinha decidido a não me envolver mais com as questões da comunidade. Mas disseram que era importante que eu participasse, me convenceram e acabei indo.

Depois, surgiu a possibilidade da escolha do conselho através da internet, a NNBJ me indicou, juntamente com o Angelo Ishi, eu aceitei e acabei sendo eleito conselheiro.

V: Primeiro você é escolhido para participar da Conferência, depois para ser candidato, foi eleito conselheiro e, em seguida, presidente do CRBE. A que você atribui tudo isso?

CS: Vou contar uma história que pouca gente sabe. Em 24 de dezembro1975 eu sofri um acidente gravíssimo de carro, fiquei em coma e até hoje sofro com as sequelas (mostra uma cicatriz enorme no braço). Eu perdi a cabeça do fêmur, tenho uma dificuldade para caminhar por causa de uma diferença de 5 centímetros em uma das pernas e uso bota ortopédica.

A partir daquele momento – do acidente – eu sempre penso diante das coisas: “por que não?”. Eu não fico pensando muito nas dificuldades porque a vida é assim. Você vê o terremoto agora, eu fui até as áreas atingidas, fiquei quatro dias lá e vi o quanto nós somos frágeis...

As coisas vão acontecendo e quando eu me dedico é pra valer mesmo. Às vezes eu quebro a cara, mas a princípio eu entro de peito aberto. No dia seguinte que cheguei ao Rio de Janeiro, eleito conselheiro pela Região 4 – Ásia, África, Oriente Médio e Oceania –, enquanto tomava café, o pessoal da Região 1, da América Central, me procurou para dizer que não tinha preferência na escolha de um presidente para o Conselho.

Eles perguntaram sobre a nossa preferência – dos conselheiros da Região 4 – e respondi que não tínhamos um candidato, mas que havíamos decidido votar juntos em um mesmo candidato. Aí criou-se uma discussão sobre quem iria se candidatar, que era uma questão importante... e eu disse “Tá bom, então eu vou me lançar como candidato”.

Angelo, Sonoki e Siham – os outros conselheiros da Região 4 – concordaram e nós tínhamos quatro votos. Aí eu comentei com o José Paulo Ribeiro, do Suriname, que é trabalhador, garimpeiro, líder comunitário, uma pessoa simplíssima e que eu tinha conhecido na II Conferência, que poderíamos ser candidatos juntos.

Decidimos que eu sairia como presidente e ele como secretário. Com isso tínhamos oito votos. Um rapaz da Europa votou na gente também e, assim, dos 16 votos, nós recebemos nove. Enquanto isso os conselheiros dos EUA lançaram três candidatos porque não eram unidos. Não foi conchavo, acordo, interesse, nada disso. Foi sentimento, vontade, disposição de unir. Isso não quer dizer que eu sou melhor do que qualquer outro conselheiro.

V: Qual é a importância de você ser o presidente do CRBE para a comunidade brasileira no Japão?

CS: Um ponto importante é que a nossa comunidade, de certa forma, é vista pelas pessoas de fora como uma comunidade sem problemas de educação, trabalho, violência, de previdência, enfim, sem problemas. Para começo de conversa somos 100% documentados, o que não acontece com 70% de três milhões de brasileiros que vivem no exterior.

Aqui, praticamente todos têm seu visto e passaporte. Uma pessoa sem esses documentos não tem direitos dentro de uma sociedade, não é nada, a autoestima acaba, então quem olha de fora, sejam as comunidades no exterior ou mesmo os políticos brasileiros, acha que reclamamos sem razão. Mas nós sabemos que isso não é verdade.

Temos problemas de educação, de saúde, de desemprego, nós temos um monte de problemas aqui e, talvez, muito mais complicados de serem resolvidos do que em outros locais, justamente porque muitas vezes acham que nós não somos prioridade. Eu sou presidente do Conselho que representa três milhões de brasileiros no exterior e não posso favorecer quem está no Japão, mas é fato que tenho a oportunidade de levantar as questões dos problemas que temos e dizer que nossa situação não é bem como muitos pensam.

V: O que você acha do pedido do jornalista Samuel Saraiva pelo fim do CRBE e direito para os brasileiros no exterior eleger um parlamentar?

CS: A questão de nós votarmos para deputado é um processo natural que vai acontecer naturalmente, só não se sabe se vai demorar dois, cinco ou cinquenta anos, mas sem dúvida nenhuma, se nós que estamos no exterior, não tivermos essa possibilidade, dificilmente as questões ligadas à nossa realidade serão resolvidas por políticos que aparecem por uma semana para participar de um evento.

Sobre o CRBE, ele tem todo o direito de manifestar o que quiser e eu não tenho a pretensão de querer que ele mude de opinião, mas acho que ele peca ao pedir o fim do CRBE porque este é um dos canais concretos que nós temos hoje. Tem alguma outra possibilidade concreta hoje?

E não é o fato da existência do CRBE que vai impedir a aprovação do projeto do senador Cristovam Buarque, que é o PEC05 e que visa possibilitar a escolha de um parlamentar pelos brasileiros no exterior. O CRBE é um canal que possibilita um exercício da mobilização, da nossa conscientização como comunidade no exterior e que é muito importante para todos.

Nós – os conselheiros – não somos deputados, não fomos eleitos como tal, não temos o poder para aprovar nenhuma lei. O que temos está claramente definido no regimento, que é servir de ponte entre a demanda e as autoridades. Se os parlamentares eleitos tivessem um pouco de sensibilidade e atendessem os brasileiros que estão no exterior, talvez o Conselho não fosse necessário nesse momento.

Tem gente que questiona o fato de não recebermos salário, mas, por outro lado, ganharmos passagens aéreas, mas nós estamos contribuindo para que o governo brasileiro tenha uma política pública voltada para o exterior. A questão da passagem é um item. Se eu saio de Nagoya e vou para Nagano quem me paga isso? Eu tiro do meu bolso. As ligações que eu faço para o Suriname também saem do meu bolso.

Outros criticam o Conselho dizendo que ele foi criado e que não está fazendo nada. Você pega uma criança que tem um ano e quer que ela saia por aí fazendo contas? Só se for um imbecil para exigir isso. As pessoas que estão cobrando não têm essa compreensão. É um processo de amadurecimento.

V: Como as pessoas podem passar seus pedidos e sugestões para os conselheiros?

CS: Estamos começando a criar a melhor forma de interagir com a comunidade. Fomos empossados, e não nos foram disponibilizados os instrumentos para isso. Teremos de criá-los dentro das condições que nós temos, usando os canais de comunicação, realizando reuniões com maior frequência e também através da Ouvidoria Consular (www.portalconsular.mre.gov.br), que foi criada em 2009 e que muitos poucos sabem que existe.

V: Mas a Ouvidoria não serve apenas para reclamações e sugestões dos serviços prestados pelo Consulado?

CS: Lógico que o foco principal é esse, mas temos um item em nosso plano sobre serviços e assistência consular. Lá entram todas as questões relacionadas ao Consulado. Por exemplo, se acontece um problema de violência doméstica, a vítima vai ao Consulado e o funcionário não tem a mínima formação e informação para orientá-la sobre como proceder.

Talvez esse não seja um problema na comunidade brasileira no Japão, mas para quem está na Alemanha, na Bélgica, na Espanha é um ponto crítico. A questão da capacitação e do aperfeiçoamento do serviço prestado faz parte de nossos planos. A desburocratização dos serviços consulares, o acompanhamento de presos, tem vários itens ligados aos serviços consulares.

V: Se nas próximas eleições nós pudermos votar para deputado, você se candidataria?

CS: Olha, na visão que tenho desde os 18 anos, quando sofri o acidente, até hoje, que tenho 55, é que se tiver que ser será. Não é minha pretensão e sendo parlamentar ou não, com Conselho ou não, eu vou continuar a fazer o que sempre fiz e colaborarei no que eu puder e que estiver dentro das condições que tenho.

Já tive muitos sonhos e frustrações também, mas não perco a esperança e cada vez mais vejo que o tempo está passando e sinto que estamos aqui para aprender, para fazermos a nossa parte, experienciar essa situação como ser humano. Se tiver que ser, por que não? Não vejo problema.

V: Qual é o principal problema da comunidade brasileira no Japão hoje?

CS: Tem duas coisas que me tocam muito. Uma são as crianças. Porque elas não têm como caminhar sozinhas e nós temos toda a responsabilidade quanto à educação delas. Nada justifica a omissão da comunidade de 270 mil brasileiros em relação a isso. Esse é um problema, uma prioridade.

Cerca de 17% da comunidade são crianças e a maioria dos 35 mil brasileiros com até 24 anos não têm formação nem do Ensino Médio. Alguns cursaram o chuugako no Japão, mas são analfabetos e não conseguem entrar no koko ou em um curso profissionalizante senmon gakko.

O outro problema são as pessoas que estão na faixa dos 60 anos hoje. Se a comunidade não se organizar, o problema vai sobrar para nós mesmos. Isso é seríssimo. Certamente cerca de 20 mil brasileiros que estão no Japão hoje estão nessa faixa. O que eles vão fazer no Japão? Eles têm como voltar ao Brasil? A maioria não.

Eles não pagaram a previdência lá... o japonês de 60 anos aqui consegue trabalho de vigia, mas o brasileiro, que mal sabe falar e ler japonês, não consegue nem esse tipo de trabalho. Então para onde ele vai? Esses dados são concretos. Isso não é invenção.

V: Quanto à educação, é possível pensar em soluções como mais incentivo, cobrança dos pais etc.. Mas e a solução para os idosos?

CS: É um problema complicadíssimo. Primeiro precisamos alertar o governo brasileiro sobre a questão da previdência para discutir medidas concretas com o governo japonês porque não dá para pegar esses brasileiros e pedir para eles voltarem para o Brasil. Hoje nós não temos nenhuma ação concreta sobre isso.

No Brasil a comunidade se organizou e criou asilos em São Paulo com a ajuda de empresas brasileiras. Era um local que recebia os idosos japoneses. Temos que, no mínimo alertar o governo japonês que isso vai virar um problema social para eles. Uma coisa que terá que acontecer daqui a pouco é o direito à assistência mesmo sem ter contribuído para a previdência. Tudo é questão política, se o governo brasileiro não fizer nenhuma pressão, não há o porquê do governo japonês aprovar algo desse tipo.

V: E o acordo da previdência?

CS: Isso faz parte dos itens discutidos na última reunião do Conselho e estamos monitorando. Pedimos para o Ministério das Relações Exteriores cobrar o Ministério da Previdência e para nos manter informados da situação desse acordo, pois não basta apenas estar assinado, precisa-se fazer com que ele seja cumprido. Se o governo japonês não obrigar as empresas a cumprir o acordo, de nada adiantará o empregado querer contribuir ou o acordo estar assinado.


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