Kanagawa


Publicado em  09/02/2011 17:44

Brasileiros no Japão lançam mão da medicina alternativa

Dekasseguis recorrem a esse tipo de medicina para solucionar problemas gerados pelo trabalho nas linhas de produção e profissionalizam-se

Japão , Kanagawa / Alexander Kanashiro/IPC

/ Cedida/IPC
De-pacientes-a-profissionais-da-saude
Cleiton Nakano Costa sofria de hérnia de disco. Recuperado pretende seguir com a profissão de terapeuta

O brasileiro Cleiton Nakano Costa, 33, e a paraguaia Cimone Ihara, 25, sofreram com problemas de saúde ocasionados pelo trabalho nas linhas de produção do Japão. Pacientes com hérnia de disco e tendinite aguda sem terem resultados com os tratamentos convencionais encontraram na medicina alternativa mais que uma terapia, uma profissão.

Costa procurava um curso profissionalizante em meados de 2007. Sofria há pelo menos dois anos com hérnia de disco e após recorrer a especialistas inclusive no Brasil decidiu experimentar a técnica World Yuki, terapia holística de manipulação óssea e muscular utilizada pelos imigrantes japoneses no interior paulista no combate às dores causadas pelos serviços exaustivos nas lavouras.

Depois de comprovar sua eficácia Costa decidiu se dedicar ao estudo da técnica. Foi necessário um ano e meio de cursos até receber o certificado que o habilita a trabalhar no país como terapeuta. Desde então vem conciliando a nova função com o trabalho na fábrica.

“Até no Brasil fui atrás de tratamento para hérnia, mas não via um resultado eficaz. Indicaram-me cirurgia, mas como não tenho confiança em cirurgia na coluna busquei algo alternativo e me dei bem”, acredita. De acordo com ele, a técnica trata a origem da dor e não a consequência por isso os resultados são permanentes.

“A massagem normal trata somente as dores. A Work Yuki dá um desconforto no início, mas vai direto a causa. É duradoura e está sendo muito bem aceita”, afirma frisando que como todo tratamento requer sessões periódicas.

Segundo Costa a procura maior é de atletas que aficionados pelo esporte precisam cuidar do corpo para conciliar o ritmo de trabalho com as atividades esportivas. “Depois de um dia de serviço você está cansado. A técnica aumenta significativamente a sua resistência para desenvolver qualquer tipo de atividade física sem prejudicar seu organismo”, explica o brasileiro que reside em Kanagawa e pretender trabalhar somente como terapeuta no futuro.

EXCESSO DE TRABALHO

A paraguaia Cimone Ihara, 25, chegou à clínica da World Yuki com tendinite aguda. Ela trabalhava numa fábrica de bolos e fazia movimentos giratórios com o braço para remover a massa durante 10 horas de cinco a seis dias por semana. “Logo comecei a sentir dor no braço direito começando dos dedos até a altura do cotovelo. Fui ao médico, mas ele apenas recomendava uma pomada e nada melhorava. Seguia trabalhando pela necessidade do dinheiro e por inconsciência da gravidade do meu problema”, lembra.

Como os analgésicos também não surtiram efeito Cimone decidiu buscar ajuda na medicina alternativa. Fez sessões de acupuntura, mas estas lhe proporcionaram apenas alívio temporário. “Depois de 24 horas a dor voltava e cada sessão custava ¥2.500 e o seguro não cobria”, diz. Quando o problema chegou ao ponto de Simone não conseguir segurar objetos leves a fábrica a dispensou.

“No momento senti que estava sendo posta de lado como uma máquina quebrada. Depois de pensar muito decidi recorrer a um sindicato de trabalhadores, e foi somente através dele que consegui que a fábrica me concedesse o seguro para acidentes de trabalho (roosai hoken)”, recorda.

Exames mostraram um pequeno desvio na coluna dorsal, inchaço dos músculos do antebraço e desgaste na cartilagem do cotovelo direito. “Tive que tomar duas injeções de esteroide em cada braço na junção dos cotovelos com o propósito de fazer crescer a cartilagem desgastada”, diz.

Naquele período Cimone já não podia lavar louças, sequer torcer um pano e tinha extrema dificuldade para usar o computador. Teve de abandonar todas as artes manuais que tinha como hobby como costura, bordado e crochê. “Houve dias que o dedo indicador e polegar da mão direita não se moviam. Sentia choques. O médico me disse que nunca mais poderia voltar a trabalhar em fábrica ou qualquer trabalho que exigisse movimento intenso das mãos”, conta.

A esperança de recuperar o movimento do braço só veio após o contato com a técnica World Yuki.“Na tarde logo após a sessão cheguei em casa, fui lavar a louça que meu marido não teve tempo de lavar antes de ir trabalhar, torci o pano e limpei a cozinha toda de tão contente que estava. Minha mão ainda estava com os músculos doloridos e inchados mas nada de choques ou travado”, descreve.

Depois do tratamento Cimone tomou conhecimento de que a World Yuki alinharia seu corpo. Soube que o inchaço e a dor muscular seriam curados pelo seu sistema imunológico e que os choques eram causados pelos ossos na junção do cotovelo que ao se movimentarem raspavam um no outro e pressionavam os nervos produzindo descarga elétrica.

Depois da reabilitação decidiu estudar a técnica e transmitir seu conhecimento para mais pessoas. Depois de dois anos de estudos Cimone que residia em Saitama retornou no mês passado para o Paraguai onde pretende abrir a própria clínica na cidade de Colônia Iguaçu. “Quero levar a outras pessoas o que para mim devolveu a alegria. Hoje vivo do meu trabalho como terapeuta e professora usando meus braços e mãos todos os dias”, finaliza.

TÉCNICA COM TRADIÇÃO FAMILIAR

A terapeuta Olga Shizue Yuki, 53, cresceu auxiliando o pai japonês a tratar as dores dos imigrantes causadas pelos serviços nas lavouras do interior paulista. Ele utilizava a técnica terapêutica holística de manipulação óssea e muscular repassada de geração em geração pela sua família para aliviar problemas com origem no cansaço físico e no excesso de trabalho.

“Não havia médicos que cuidassem dos japoneses na colônia. Ele fazia parto e atendia pessoas com medicamentos naturais. Era um médico sem fronteiras, pois também fazia traduções para quem não sabia falar a língua portuguesa em hospitais”, relata Olga.

A brasileira aprimorou a técnica denominada World Yuki em escolas japonesas na década de 90 e há 12 anos realiza a atividade do pai no Japão. Hoje, se orgulha ao ensinar para brasileiros e latinos residentes no arquipélago uma nova profissão. “Meu pai também foi projetista e construtor. Por isso falava sempre para se profissionalizar. É esse o recado que dou. Adquira uma profissão, não importa se é mecânico, massagista, costureiro ou cozinheiro. Invista em si e profissionalize-se”, recomenda.


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COMENTÁRIOS
sen (Quarta-Feira, 9 de Fevereiro de 2011, 20:47:00) x 189
Assim como na medicina convencional existem maus e bons profissionais.

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