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/ Marcy Costa/Vitrine
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"Não estou me glorificando, tenho meus defeitos sou ser humano, acho que as pessoas podem me criticar, falar o que quiserem, mas o que vale mesmo é que eu posso colocar minha cabeça no travesseiro e dormir tranquilo", diz Saito
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O empresário paranaense Walter Toshio Saito, 43, foi confundido, ou exposto, como herói e recebeu críticas por ter recebido pagamento do Consulado Geral do Brasil em Tóquio para resgatar brasileiros da região nordeste do Japão após a ocorrência do terremoto seguido por tsunami em 11 de março. Confira o que ele tem a dizer em entrevista concedida para a revista Vitrine.
VITRINE: Vamos direto ao assunto, você teve lucro ao prestar o serviço de resgate de brasileiros?
WALTER SAITO: Não tive lucro. Foram feitas duas viagens, em cada uma foram oito pessoas fora eu. Devido à distância da viagem, que durou entre 10 e 13 horas, cada veículo saiu com dois motoristas.
Ou seja, 4 veículos, 8 motoristas, gasolina... é só fazer as contas pra saber se eu tive lucro ou não. Outra coisa que precisa ser inclusa nas contas são os apartamentos, que se alugássemos de forma comum, teríamos que fazer um contrato de dois anos, cobrar um mês adiantado e, depois que a pessoa avisasse que iria sair, cobrar os últimos 30 dias, conforme é feito no Japão. Mas neste caso foi cobrado apenas o valor de uma semana, pois eles não usaram o imóvel por um mês.
Então eu não sei qual de que forma que as pessoas estão me julgando e dizendo que eu estou ganhando dinheiro. Não entendo, mas posso dizer de coração que na realidade, tudo o que fiz e que aconteceu foi espontâneo e acabou chamando a atenção das mídias locais e internacionais, inclusive uma equipe japonesa acompanhou meu trabalho.
V: As mídias que acompanharam seu trabalho tiveram autorização para isso?
WS: Sim, na realidade eu não autorizei, passei a responsabilidade para o Consulado. Eles me deram “carta branca” para resolver se e eu não vi problema nenhum com isso. Então a IPC me consultou, assim como uma equipe da tevê japonesa também, pra mim não tinha problema nenhum.
Posso não acreditar em horóscopo, mas acredito muito em Deus e acho que Ele sabe o que faz. Se a mídia divulgou acho que era um fato que realmente deveria ser televisionado. Isso serviu de exemplo, pois muitas pessoas me ligaram pedindo as coordenadas para fazer o mesmo. Inclusive eu encontrei três ou quatro desses que me ligaram em Sendai. Eles me disseram tinham me visto na tevê, que acharam legal e estavam ali fazendo o mesmo.
Eu mesmo me inspirei em uma reportagem sobre empresários dekasseguis da revista Veja que foi publicada por volta dos anos 90. Na época eu li aquilo e pensei: “se esse cara pode eu também posso!”, me senti estimulado. Até hoje tenho essa revista guardada.
Se você faz algo de bom e interessante alguém vai se interessar por aquilo e vai mostrar para outros, isso vai servir de exemplo. Não estou me glorificando, tenho meus defeitos sou ser humano, acho que as pessoas podem me criticar, falar o que quiserem, mas o que vale mesmo é que eu posso colocar minha cabeça no travesseiro e dormir tranquilo.
V: Por que você foi chamado pelo consulado para realizar o resgate?
WS: No dia 12 de manhã (dia seguinte a ocorrência do terremoto seguido por tsunami), eu estava assistindo o noticiário da rede NHK e vi as pessoas dizendo que estavam passando por dificuldades. Lembrei da lição que tive quando eu era rotariano (sócio do Rotary Clube de Kamisato), na época do terremoto de Niigata que tentamos ajudar as pessoas meio que “na louca”, juntando as coisas e indo para a área atingida sem organização. Por isso, desta vez, a primeira coisa que fiz foi ligar para a prefeitura de Sendai para saber como eu poderia ajudar. Fui orientado a entregar os donativos na escola do corpo de bombeiros e assim o fiz.
Lá (em Sendai) vi que as pessoas estavam bem abatidas e que ficaram contentes com os donativos, porém eu fiquei chocado ao perceber que as três toneladas que levei não seriam suficientes para suprir as necessidades nem de um ou dois dias.
Como essa ação foi divulgada pela televisão, acabou chamando a atenção das pessoas e creio que deva ter chegado até o pessoal da Embaixada e do Consulado, que acabaram me convidando para fazer esse trabalho (de resgate dos brasileiros nas regiões mais atingidas).
Na ocasião eu falei pro cônsul (Antônio Carlos Coelho da Rocha, cônsul-geral do Brasil em Tóquio) e para a Patrícia (Patrícia Côrtes primeira secretária do setor de comunidade da Embaixada do Brasil em Tóquio) que eu poderia fazer o trabalho gratuitamente, mas eles não aceitaram. Acredito que, talvez, eles não poderiam aceitar que eu fizesse isso porque tratava-se de uma ação do governo brasileiro.
Eu não tinha ideia do quanto cobrar, mas fiz as contas dos gastos e dos salários dos motoristas e disse para o cônsul que sairia cinquenta mil ienes por dia. E ele aprovou.
V:Parece que, além de brasileiros, você resgatou também pessoas de outras nacionalidades, enfim quantas pessoas você resgatou?
WS: Na realidade eu não tenho esse número exato. Quem viu tudo isso foi o pessoal do Consulado, a minha função era coordenar a logística e é por isso que eu não entendo o porquê das críticas à minha pessoa. Não sei se me expressei de forma que deu a entender que eu estava bancando tudo, mas em hipótese alguma foi isso, ninguém escondeu que se tratava de um serviço pago. Na realidade meu serviço não é carregar pessoas que estão em dificuldade, mas me senti muito feliz em saber que estava sendo útil para outras pessoas.
Na primeira viagem sei que tinha gente de Bangladesh, do Nepal, brasileiro e japonês também. Quando chegamos lá (nas cidades mais atingidas) tínhamos uma lista, passada pelo consulado, com um número de pessoas e entramos em contato elas. Algumas não tinham condições de chegar ao local e nem nós de irmos ao encontro delas, outras desistiram de voltar na última hora e como ainda tinha lugar no ônibus, entramos em contato com o Consulado e ele nos autorizou a abrir exceções para as pessoas que queriam sair de lá e que estavam em situação bem complicada.
Eles vinham nos pedir pelo amor de Deus para vir embora. Com ia sobrar lugar no ônibus, não custava ser útil. Não é porque trouxemos pessoas de outras nacionalidades que essa missão tenha sido em vão. Não foi culpa do consulado, ou minha, se foi resgatado um número menor de brasileiros do que o previsto.
V: Então foram duas viagens de resgate que o consulado pagou e você foi mais uma vez por conta?
WS: Eu fui quatro vezes pra lá. Na primeira eu levei os mantimentos, na segunda e na terceira eu fui para resgatar as pessoas em serviço pelo consulado e, como os veículos iam vazios, eu aproveitei a viagem para levar mantimentos também. Na quarta vez eu fui sozinho só com mantimentos e levei mais itens de higiene pessoal como escovas de dente, máscaras, álcool, cola e líquido para higienização de dentadura, etc.
Se pudesse eu iria de novo, mas agora realmente tenho que retomar minha vida e atividades, acho que o começo é o mais difícil. Agora já tem a Cruz Vermelha, o exército, embaixadas, agora todo mundo já está ajudando. Pra nós que somos pequenos acho que o interessante mesmo é ter ajudado no começo.
V: Quantas toneladas de donativos levou?
WS: Entre 12 ou 15 toneladas. Toda vez que íamos os veículos ficavam cheios. Pra você ter uma ideia, nessa última vez, que levei itens de higiene, foram 12 mil escovas de dente, umas 7 mil escovas para crianças, 10 mil máscaras...
V: E foi você que comprou tudo isso?
WS: Não, é tudo doado por colegas da cidade. Em momento algum eu falei que consegui isso tudo sozinho. Não sei o que fiz de errado para as pessoas dizerem que eu fiz isso pra aparecer. Esse é o tipo de coisa que as pessoas julgam sem saber realmente as intenções da gente.
V: Você usou a bandeira do Brasil para chamar a atenção dos brasileiros e para que eles viessem ao seu encontro. Foi só isso ou o coração bateu mais forte e, de repente, você quis mostrar que ali haviam brasileiros ajudando?
WS: Eu usei a bandeira para me identificar e não porque fiquei emocionado ou qualquer outra coisa. Eu sou brasileiro e onde quer que eu veja uma bandeira do Brasil me chama a atenção. Isso acontece com você e com qualquer brasileiro que esteja no exterior. Se você for nos Estados Unidos e ver uma bandeira do Brasil vai te chamar a atenção. Então foi isso que eu pensei. Só que quando as pessoas me viam enrolado na bandeira elas vinham me abraçar, choravam, na hora eu não entendi. Um deles chegou a me dizer que, quando viu a bandeira, se emocionou porque se sentiu salvo.
(a decisão de usar a bandeira) Foi algo espontâneo, não é que eu fiz para aparecer. E o que há de errado em usar uma bandeira do Brasil para sinalizar? Qual seria a polêmica em cima disso? Eu não estou entendendo. Nós íamos colocar a bandeira no ônibus para identificá-lo como o ônibus do consulado, mas acabamos usando ela para entrar nos abrigos.
V: E como você recebeu as críticas?
WS: Eu não sei de quais críticas você se refere. Na verdade sei que um blog divulgou algumas informações, mas não acredito que seja crítica e acho que temos que parabenizá-lo, pois me parece uma pessoa muito inteligente. Ele tem todo o direito de dizer o que quiser.
Só acredito que não será ele quem vai me dizer se estou certo ou errado. Sei receber críticas como lição de vida para melhorar.
Eu me sinto útil no mundo, indiferentemente da situação e se estão me criticando ou não. Apareci na televisão sim, fui elogiado, repudiado, mas e daí? O que eu ganho com isso? O mais importante é que me sinto útil.
Meu negócio é por a mão na massa, trabalhar e ser o melhor no que faço. Seja um resgate, uma plantação de cebolinha ou na importação ou exportação, eu quero ser o primeiro porque o segundo ninguém conhece. Você sempre tem que ser o primeiro no que faz. Eu jamais eu vou denegrir a imagem de alguém, eu tenho que provar que sou melhor. E digo que só tenho a elogiar quem me critica.
V: Está arrependido de algo?
WS: Do quê? Você só se arrepende quando faz algo errado, mas não vejo nada errado no que fiz. Recebi para realizar o trabalho sim e não há do que me arrepender.
V: Você acha que, de alguma forma, ficou parecendo que você tinha feito a ação sozinho, e não por contratação do Consulado, e as pessoas podem ter se assustado quando ficaram sabendo que você recebeu pelo serviço?
WS: Vai de como a pessoa interpretou. Se você pegar as notícias que foram publicadas nos meios de comunicação praticamente a maioria das reportagens diz que eu estava prestando um serviço para o consulado. “Prestar um serviço” quer dizer que você está sendo remunerado. Não tenho que “puxar a sardinha” pra nenhum lado porque não é isso que me dá o que comer. O que vale mesmo é ler e interpretar.
V: No livro 'O Segredo dos 100', você aconselha as pessoas a procurarem seus diferenciais. Qual é o seu diferencial?
WS: Acho que às vezes sou meio louco, digo isso porque se coloco algo na cabeça eu faço acontecer. Quando eu decidi que juntaria arroz para as vítimas do terremoto em Sendai eu liguei pra amigos, coloquei uma placa na frente da minha empresa e consegui. Muitos não acreditavam.
Quando falei que começaria a fazer horta, riram de mim porque eu não tinha experiência, mas segui em frente e hoje sou o maior produtor de negui da minha região. Esse é o meu diferencial. Procuro não criticar as pessoas também. Cada um tem sua forma de pensar, agir, e acho que temos que respeitar. Só somos respeitados a partir do momento que respeitamos as pessoas.