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/ Edson Xavier/JPTV
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Quem mora em pequenas cidades no interior do Japão dificilmente tem por perto uma loja de produtos brasileiros, e assim, uma vez por semana esperam a chegada de caminhões
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Desde que os primeiros brasileiros desembarcaram no Japão há mais de duas décadas se estabeleceu o comércio de produtos do Brasil, quando eram poucas as lojas estabelecidas – e muitos os caminhões que faziam vendas a domicílio em alojamentos de brasileiros nas mais remotas localidades. Hoje o mercado mudou, mas ainda caminhoneiros saudosistas levam mercadorias a brasileiros que vivem em regiões afastadas dos grandes centros.
Quem mora em pequenas cidades no interior do Japão dificilmente tem por perto uma loja de produtos brasileiros, e assim, uma vez por semana esperam a chegada de caminhões como o do motorista Cleverson Hashimoto, o popular “Kabelo”. Ele atende a região de Gifu e Shiga com uma loja ambulante na carroceria baú de seu caminhão, com centenas de produtos que abastecem a clientela. E ajudam a diminuir a saudade de sabores do Brasil.
Caminhoneiro que persiste na atividade, Cleverson “Kabelo” parte de Ogaki diariamente no meio da tarde e percorre cerca de 150 quilômetros entre ida e volta para atender clientes na província de Shiga.
Ele acredita que este tipo de comércio porta-a-porta se mantém até hoje pela praticidade. Os clientes gostam de ter a loja-caminhão a poucos metros de casa, quando podem fazer as compras da semana em horário conveniente. “E eu me acostumei com essa vida, de estar dirigindo todo dia a uma cidade diferente, gosto de trabalhar sem patrão,” revela o caminhoneiro. Além da relação de amizade que se estabelece entre o vendedor e os clientes.
Os caminhões de produtos tiveram seu auge cerca de 20 anos atrás, quando eram bem poucas as lojas brasileiras no Japão. Época em que várias empresas concorrentes entre si colocavam diariamente nas estradas dezenas de caminhões abarrotados de produtos. Cada qual tinha sua linha, e em dias alternados, atendiam alojamentos brasileiros nas localidades mais remotas.
SAUDOSISMO
Cleverson lembra que naquela época a concorrência era bastante acirrada. Lojistas que mantinham caminhões nas estradas ganharam muito dinheiro com o comércio ambulante, mas hoje a realidade é outra. As lojas físicas se multiplicaram, o preço dos produtos é bem menor, assim como também caiu a margem de lucro, e há poucos caminhões rodando os alojamentos de brasileiros – até porque, também encolheu o mercado consumidor.
Ainda assim, neste mercado, quando um caminhão pára de rodar, outro logo assume a linha, para não deixar a clientela na mão. E também, de olho nas vendas. Cleverson “Kabelo” percorre a mesma rota em Shiga faz 8 anos e conta que nesse tempo firmou amizade com os clientes, além de oferecer sempre atendimento personalizado. Segundo ele, vender a domicílio exige bastante flexibilidade.
“O caminhão não tem como estocar tantos produtos como em uma loja. Então, se o cliente pede algo que não tenho em mãos, eu anoto e providencio o pedido para entregar na próxima semana. O que mais se vende hoje é a carne e feijão, depois vêm o pão e os assados em geral”, revela Cleverson. Segundo ele, o período de inverno favorece as vendas porque os clientes ficam mais em casa, ao contrário do verão quando as pessoas costumam sair para a praia, churrascos, e outras atividades fora.
SATISFEITOS
Keila Kajikawa Kimura, residente no bairro Toyosato, em Hikone, é cliente de caminhões de produtos brasileiros faz 9 anos, desde que chegou no Japão. Como sempre morou em regiões afastadas de grandes centros, sem lojas brasileiras por perto, habituou-se com a comodidade. E destaca que a compra no caminhão também representa economia.
“Além de ganhar tempo, porque o caminhão pára na minha porta, eu ainda economizo gasolina porque não temos que pegar carro para ir até alguma loja”, afirma a mulher.
Laércio Paulo da Rosa concorda. Afirma que o caminhão é muito conveniente para quem, como ele, não dispõe de tempo para sair para as compras. O consumidor Walter Koji Fujisawa é outro que não abre mão da comodidade. “Faça sol ou chuva, ou mesmo embaixo de neve o caminhão vêm toda semana, então a gente dá preferência para as compras com ele”, diz.
Brasileiros que moram em Shiga na rota atendida pelo caminhão de Cleverson “Kabelo” têm poucas opções de comércio brasileiro estabelecido. Moram em cidades como Nagahama, Maibara, Hikone, Ishigawa e Notogawa, e preferem viver no interior a grandes centros.
INTERIOR
Junio Santos revela que por lá não falta trabalho, o salário é maior, o aluguel é mais em conta, e como são poucas as opções de lazer, é o local ideal para quem pretende fazer poupança. Junio diz que prefere morar no interior. Ele não tem carro nem carteira de habilitação e vive bem distante do centro da cidade.
O casal Márcio Adania e Kelly Okuma concorda que viver no interior é melhor para quem quer economizar. Márcio e Kelly estão no Japão faz 18 anos, pais de um filho menor, e nunca pensaram trocar o interior por grande centro, ou por cidade com grande concentração brasileira.
Ronaldo Takara, também veterano no Japão, é outro que se diz satisfeito com a região onde mora. E tem opinião formada sobre o caminhão de produtos. “É muito conveniente porque ajuda a gente. Chego do serviço e o caminhão já me espera na porta e posso comprar o que preciso”, assinala.
HORA CERTA
O atendimento a domicilio é programado pelo caminhoneiro conforme o horário que os clientes saem do trabalho. Em alguns casos, o local de parada do caminhão e a própria venda, são feitos por telefone.
Para o caminhoneiro, não adianta chegar muito cedo, nem muito tarde. Por isso a cada noite o caminhão atende uma linha diferente. É assim que funciona desde que os primeiros brasileiros começaram a chegar ao Japão tem mais de 20 anos atrás.
Logo depois do almoço de uma terça-feira Cleverson “Kabelo” abasteceu o caminhão de produtos em Ogaki e às 15 horas embarcamos na boléia com o caminhoneiro para fazer a rota de Shiga. Ás 23 horas ele atendeu o último cliente do dia e pegou a estrada de volta – para no dia seguinte, estar de volta à estrada, em uma nova rota.