Quem é Ricardo Wakuta?
Sou nikkei e tenhos 37 anos de idade. Cheguei no Japão dia 1 de novembro de 1990. Vim porque acreditava na possibilidade de realizar vários sonhos aqui como por exemplo, comprar equipamentos para ser DJ (disck joquei), ter um carro e ajudar a família financeiramente. Durante 15 anos, trabalhei em diversos locais como fábrica de baterias em Kosai, torno em Saitama, jato de areia em Tokyo, eletrônicos e peças para fundição em Yamanashi e Nagano, além de baritori e kensa de peças automotivas em Aichi. Em paralelo aos trabalhos na fábrica atuei como DJ nos eventos próximos aos lugares citados. De 2005 em diante comecei a trabalhar com vendas de anúncios em revista gratuita, e, a partir de 2008, iniciei consultoria de vendas no setor de comércio eletrônico.
Fale sobre os principais problemas da comunidade e proponha soluções?
De um modo geral, o principal problema em todas as comunidades de brasileiros no exterior é a perda da identidade. Afinal, somos "dekasseguis", "migrantes", "imigrantes", "expatriados" ou somente brasileiros no exterior? A solução está nas mãos das pessoas que irão votar e depois se unir em torno de idéias e propostas que a pessoa eleita irá levar para a III Conferência de Brasileiros no Mundo. Será preciso que haja um consenso dentro da comunidade para definir o que somos, quais nossos objetivos, para onde vamos e o que podemos fazer pelo futuro. O CRBE é uma abertura para a comunidade dialogar com o MRE (Ministério das Relações Exteriores). É uma chance de mudar e começar a agir de forma unida, onde todos possam se beneficiar. Mas só dará certo se as pessoas deixarem de lado o negativismo, a inveja e enxergarem que é preciso união e respeito para conseguir melhorias para todos.
O brasileiro no Japão é dekassegui ou imigrante?
Tanto o brasileiro do Japão, como de outros países, são pessoas que saíram do Brasil pois sonhavam em melhorar seu nível de vida através do trabalho, as vezes sujo, pesado, corrido, desgastante. Muitos estudaram, mas não tiveram oportunidade em terras tupiniquins. Este movimento migratório criou, aqui e em diversos países, comunidades de brasileiros batalhadores. No começo dos anos 90 talvez poderíamos dizer que éramos "dekasseguis", pois a grande maioria veio com a intenção de guardar dinheiro para retornar ao Brasil. Havia a saudade de amigos e da família, dificuldade de comunicação, difícil adaptação aos alimentos e poucas opções de diversão. Com a vinda de familiares, abertura de lojas, barateamento das ligações internacionais, internet, baladas brasileiras, intérpretes em escolas, hospitais e prefeituras, a vida (pelo menos) no Japão já não é tão difícil. Estamos vivendo o mesmo dilema dos nossos antepassados que emigraram do Japão para o Brasil. Acredito que devemos agradecer a eles, que definiram o Brasil como lugar para viver o resto de suas vidas, se tornaram imigrantes, batalharam para educar bem os filhos e deixaram um legado (trabalho, educação, disciplina, respeito e confiança) para nossa geração. Essa pergunta é difícil, mas todos devem responder o mais rápido possível, para definir suas metas, seus objetivos e o futuro dos filhos.
Você acha que o governo japonês vem colaborando para a boa estadia do brasileiro no país?
O Japão tem uma cultura milenar e sistema governamental bem diferente do nosso país. No passado participou de inúmeras guerras e dominou outros povos. Ficou quase 300 anos fechado ao mundo exterior e foi massacrado em 1945. Como imaginar o que se passa na cabeça dos japoneses que lutaram para reconstruir o país que chegou a ser a segunda maior economia do mundo? Tenho visto diversas iniciativas surgindo para melhorar a convivência, mas os resultados não serão sentidos no médio prazo. O Brasil demorou mais de 500 anos para chegar ao estágio de crescimento econômico e ganhar reconhecimento internacional. Será muito difícil implantar um modelo de convivência multicultural nesta geração sem a aceitação da cultura por ambas as partes envolvidas no processo. Como exemplos de colaboração, cito os cursos técnicos em português, subsidiados e oferecidos para quem está desempregado, a contratação de intérpretes brasileiros no setor educacional, nas agências de emprego, prefeituras e prédios habitacionais públicos.
Como vê a atuação das autoridades brasileiras no país com relação aos detentos e ao atendimento consular?
Não acompanho o trabalho das autoridades em relação aos detentos. Referente ao atendimento consular, está melhorando gradativamente (Nagoya).
O que você diria ao brasileiro que quer retornar ao Brasil e ao que quer permanecer aqui?
Todos os brasileiros no Japão são batalhadores, só precisam definir o objetivo final dessa luta. Transformar o sonho em uma meta concreta, escrever no papel onde quer chegar e acreditar no seu potencial. Precisamos descobrir o nosso dom e treinar muito para melhorar cada vez mais. Já que estamos no Japão é de muita valia seguir o kaizen, o processo de melhoria contínua, que fez inúmeras empresas japonesas se tornarem as melhores do mundo no seu setor de atuação. Todos podem melhorar, seja aqui ou no Brasil.
Como os brasileiros devem se preparar para o futuro no Japão?
Confiar que pode conseguir é o primeiro passo para todas as coisas darem certo. Tem pessoas que preferem diminuir os feitos dos outros para se sobressair, para tentar alcançar algum "status". Somos 250 mil brasileiros privilegiados por estarmos próximos das mais avançadas tecnologias, dos melhores sistemas de produção, de marcas que conquistaram o mundo, de premiados cientistas, de sistemas eficazes de transporte e atendimento. É preciso absorver o máximo deste know-how ao nosso redor, somar com a criatividade nata do brasileiro e treinar para sermos realmente melhores e mais valorizados. E, como disse Pitágoras "Eduquem as crianças e não será necessário punir os homens".