Cerca de 10 mil brasileiros vivem no Líbano, a maioria descendentes de emigrantes da região que voltaram anos depois e hoje têm dupla nacionalidade. O número é uma estimativa de um deles, o escritor e pesquisador Roberto Khatlab, 50.
Natural de Maringá (PR), ele é um dos dois postulantes no Líbano ao CRBE (Conselho de Representantes de Brasileiros no Exterior) pela região da Ásia, África e Oceania (a outra, Siham Hussein Harati, não foi encontrada até o fechamento da edição). Caso vença, representaria não só a comunidade de 25 mil brasileiros que estima morar no Oriente Médio, mas também aqueles no Japão, onde residem sua irmã e o cunhado nikkei.
"Estamos integrados à sociedade libanesa. Alguns fazem parte de partidos políticos. Temos até brasileiro chefe de partido político, ministro e deputados", conta Khatlab, sobre as diferenças em relação a outros grupos tupiniquins pelo mundo. "Um libanês tem sempre um parente ou amigo no Brasil ou já morou lá. Na Copa, havia bandeiras brasileiras em toda parte, e todos sofreram com a nossa derrota."
Por que há tantos brasileiros no Líbano?
ROBERTO KHATLAB: Os libaneses foram para o Brasil a partir de 1880 e principalmente na década de 1920, quando o Líbano estava sob domínio francês. Depois disso, vários retornaram. Em certos vilarejos, o português é o segundo ou até mesmo o primeiro idioma. É o caso de Soutan Yakoub, onde 90% da população fala português. Portanto, não temos as mesmas dificuldades de outros emigrantes brasileiros.
Quais os problemas enfrentados pelos brasileiros no Oriente Médio?
KHATLAB: Existem dificuldades sociais, religiosas, de tradições e de conflitos armados. No Oriente Médio e, particularmente, no Líbano, existe um grande mosaico de religiões muçulmanas e cristãs. Só o Libano tem 18 tipos destas duas religiões. O cidadão é enquadrado dentro das regras de cada crença. Isso causa problemas, por exemplo, na separação. A guarda dos filhos é do pai, e não da mãe, como no Brasil. A falta de conhecimento destes detalhes gera polêmica, motivo pelo qual sugeri na 2ª Conferência de Brasileiros no Mundo a publicação de uma cartilha sobre o tema, que já elaborei.
Como os frequentes conflitos atingem a comunidade?
KHATLAB: O Líbano passou por uma guerra civil entre 1975 a 1989. Muitos brasileiros estiveram aqui neste período. Estive desde 1983 até o final. Nesse período, os brasileiros se defendiam e viviam como podiam. O país não parou, e a embaixada e o consulado do Brasil continuaram abertos. Trabalhei na primeira de 1986 a 2003. Em 2006, teve o conflito armado entre o Partido de Deus (Hezbollah) e Israel. A guerra durou 30 dias e teve 1,5 mil mortos da parte libanesa e em torno de cem na parte israelense. Entre os libaneses, tivemos vários brasileiros mortos e feridos. Durante este conflito, o governo brasileiro fez uma operação de evacuação que enviou mais de 3 mil brasileiros para a Turquia e a Síria de ônibus. De lá, eles partiram para o Brasil em aviões do governo. Depois do ocorrido, o cônsul do Brasil na época, Michael Geep, decidiu criar o Conselho de Cidadãos Brasileiros (CCB) no Líbano. Um dos objetivos foi o levantamento de nomes, telefones e e-mails de brasileiros residentes no país, para casos de emergência.
Existem ONGs ou NPOs que representem os brasileiros no Líbano?
KHATLAB: Não. Mas temos o CCB, formado por oito conselheiros. Sou o secretário-executivo do grupo. Cada membro está em uma região do país, o que facilita o contato com todos os brasileiros. No momento, divulgamos eventos brasileiros no Líbano entre a comunidade. Também repassamos informações consulares e do Brasil. Em caso de conflito, a comunidade será informada sobre o que fazer.
Como pretende conquistar o voto dos eleitores no Japão?
KHATLAB: Creio que terei de conseguir votos na região onde resido e sou candidato, o Oriente Médio. Conquistarei através de contatos que tenho há alguns anos nesta região. Muitos me conhecem pessoalmente ou por meus livros e pesquisas publicados. Já escrevi sobre a questão da emigração e imigração “brasilibanesa”. Além disso, muitos me conhecem pelo apoio que ofereço quando existe alguma dificuldade ou querem realizar algum projeto na região.
Qual sua opinião sobre a taxa de 2% sobre remessa proposta pelo deputado Manoel Junior?
KHATLAB: Não acho viável, pois o brasileiro que está trabalhando no exterior, geralmente, o faz para auxiliar financeiramente alguém no Brasil. Caso contrário, não sairia do país. Para a remessa de dinheiro, já é preciso pagar uma taxa e, ao chegar ao Brasil, outra. Essa de 2% irá parar onde? Ninguém tem certeza. Não creio que será possível controlar isso. Os mais necessitados são quem pagarão, pois esses mandam dinheiro todo mês para as famílias.
E quanto à criação de deputados federais oriundos do exterior?
KHATLAB: Também não acho viável, pois será uma despesa a mais. Creio que o fortalecimento dos conselhos de cidadãos no exterior é a melhor solução, pois são pessoas imigradas que sabem melhor do que ninguém suas necessidades reais.
Por que votar em Roberto Khatlab?
KHATLAB: Resido no Oriente Médio há 25 anos e acompanhei a realidade da comunidade brasileira por todo esse tempo. Tenho colaborado em várias instituições e continuarei a fazê-lo, independentemente de vencer ou não. Esta eleição é apenas uma etapa desta convivência. Tenho instruído os brasileiros no Oriente Médio, pois aqui a realidade é outra, diferente daquela vivida por brasileiros em outras partes do mundo. Aqui eles têm dupla nacionalidade e, quando ocorre um problema, devem seguir as leis locais. Nesse caso, a legislação brasileira pode fazer muito pouco por eles. Muitos ignoram seus direitos e deveres, e é justamente sobre isso que procuro instruir. Vencendo as eleições, apenas darei continuidade ao que já realizo, mas dentro de um contexto mais estruturado. Pretendo ser um interlocutor entre a comunidade e o Brasil.