PARIS - Os últimos meses confirmaram o cenário de aceleração do crescimento econômico da zona do euro e no Japão, o que provocou a revisão das previsões semestrais feitas pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) para as duas regiões, e a correção para baixo dos valores dos Estados Unidos.
No relatório de perspectivas publicado no dia 24, a OCDE calcula que o Produto Interno Bruto (PIB) de seus 30 países-membros aumentará 2,7% neste ano e no próximo, depois de ter afirmado em dezembro que os valores seriam de 2,5% e 2,7%, respectivamente.
As razões da mudança são vistas principalmente na zona do euro: a previsão para 2007 foi elevada em cinco décimos, para 2,7%, mas se manteve em 2,3% para 2008. Para isso contribuíram a Itália e a Alemanha, cuja evolução positiva surpreendeu apesar do aumento do Imposto sobre Valor Agregado (IVA).
O nível do euro "até agora reflete a força da zona do euro", observou o economista-chefe da OCDE, Jean-Philippe Cotis. Para ele, câmbio alto da moeda única européia não prejudica a economia dos países-membros que "exportam enormemente produtos manufaturados", como a Alemanha, mas afeta outros com nível competitivo "menos forte", como a França e Itália.
No entanto, esses países devem concentrar-se em realizar reformas estruturais que melhorem sua produtividade. Mas Cotis admitiu que "é preciso ficar atento ao futuro" se o valor do euro acarretar redução do crescimento econômico.
Os autores do relatório também foram surpreendidos pela aceleração ainda mais intensa da atividade nos últimos meses na Espanha, o que provocou uma revisão para cima em três décimos no PIB para este ano (3,6%). Ao mesmo tempo, reduziram em quatro décimos as expectativas para 2008 (2,7%), por indícios como desaceleração no setor da construção.
O economista-chefe da OCDE disse que os mercados já descontam duas novas altas de taxas de juros do Banco Central Europeu (BCE) este ano de 0,25 pontos percentuais cada, em junho e depois.
Fora da eurozona, o Japão está com os melhores resultados e a previsão agora é de registrar 2,4% em 2007 (quatro décimos a mais que em dezembro) e de 2,1% em 2008 (um décimo a mais).
O chamado "clube dos países desenvolvidos" reconhece que nos EUA o comportamento da economia no primeiro trimestre foi "modesto".
Embora esperem uma melhora no resto do ano, reduziram as expectativas americanas em três décimos para 2007 (2,1%) e em dois décimos para 2008 (2,5%).
Cotis considera que o cenário de "reequilíbrio" entre as grandes forças da economia mundial é "muito propício".
"Uma aterrissagem suave nos EUA, uma recuperação forte e sustentada na Europa, uma trajetória sólida no Japão e uma conjuntura em fervor na China e Índia", disse.
Sobre a China, Cotis explica que as autoridades têm dificuldades para "conter o vigor" de um crescimento econômico que, segundo os últimos números, supera 11% anuais.
Esse "reaquecimento" é um dos riscos que pesam sobre as atuais perspectivas, unido aos "poucos sinais" de reabsorção dos desequilíbrios exteriores, como o déficit recorde dos EUA em contraste com os superávits de China e Japão.
Cotis alerta também sobre os "desequilíbrios" nos mercados financeiros e imobiliários. Se por um lado "os preços das ações aparecem bem mais elevados" - embora a situação não seja comparável à do fim dos anos 1990 -, por outro, o investimento em habitação "chegou a um pico decenal" em boa parte dos países da OCDE.
Sobre este último ponto, a principal preocupação vem dos EUA, onde "o setor imobiliário sofreu uma desaceleração mais forte do que previsto", com um aumento "inquietante" de imóveis sem compradores e um núcleo da inflação alto, que provoca o temor por uma recuperação fraca.
Cotis estima que não há margem para que o Federal Reserve (banco central americano) baixe suas taxas de juros este ano.
O aumento do núcleo da inflação na zona do euro deve provocar uma nova alta das taxas de juros, da mesma forma como ocorreu no Reino Unido. Quanto ao Japão, Cotis se declara favorável a mantê-los como estão.
A OCDE reconhece que os Governos dos países-membros reduziram o déficit público nos últimos dois ou três anos, aproveitando o aumento de renda durante a fase de maior crescimento do ciclo, e muito pouco com o controle da despesa.
O economista-chefe afirma que uma redução estrutural do déficit é "altamente desejável e bastante improvável" em um futuro em que a conjuntura poderia ser menos propícia. Ele faz um apelo para dedicar os acréscimos fiscais a tapar buracos. Outra advertência se refere à manifestação das negociações para a liberalização do comércio mundial.
"Uma detenção brusca da integração econômica mundial (...) poderia ter conseqüências de uma amplitude incalculável", disse.
Cotis se queixa de que no debate sobre a questão só se fala dos inconvenientes da globalização e se perdem de vista "os lucros multiformes que permitem um mundo melhor integrado".