No ano dos Jogos Olímpicos de Pequim, fica difícil evitar misturar esporte e política, principalmente com as pressões sofridas pelo Governo chinês nos últimos dias por causa de sua política em relação aos direitos humanos.
Organizações humanitárias, vencedores do prêmio Nobel da Paz e famosos como o cineasta Steven Spielberg estão entre os que vêm protestando contra a conduta da China.
A negativa de Spielberg em continuar colaborando na criação da cerimônia de abertura dos Jogos, em protesto pela postura chinesa no conflito da região sudanesa de Darfur, abriu espaço para uma nova avalanche de protestos vindos de diversos pontos do mundo.
Prêmios Nobel da Paz como Adolfo Pérez Esquivel (1980), Rigoberta Menchú (1992) e Desmond Tutu (1984) também demonstraram seu repúdio pela política da China em relação a Darfur, enquanto que a organização Repórteres Sem Fronteiras recriminou a censura à liberdade de expressão no país asiático.
A Anistia Internacional (AI) abordou a questão da perseguição de dissidentes, e a organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch (HRW) protestou contra os problemas já citados, além de outros como a exploração de empregados na produção de artigos esportivos.
A postura do Comitê Olímpico Internacional (COI) nesse tipo de situação é a mesma há anos: o órgão acredita que os Jogos contribuam para melhorar a situação dos direitos humanos na China, mas lamenta que o evento se transforme em uma plataforma para reivindicações políticas.
"O COI não é uma organização política, mas esportiva", disse o belga Jacques Rogge, presidente da entidade. "Os Jogos não podem solucionar todos os problemas do mundo, só contribuir", acrescentou.
O holandês Hein Verbruggen, presidente da Comissão de Coordenação do COI para os Jogos de Pequim, afirmou que a organização simpatiza com os temas colocados, mas que deve se concentrar no sucesso da competição.
Os atletas, mesmo os mais politizados, admitiram que vão acatar as regras do comitê para não arriscar suas respectivas participações em agosto na China.
Foi o que fez Richard Vaughan, um dos melhores jogadores britânicos de badminton e membro da ONG Team Darfur, entidade bastante crítica em relação ao papel da China na crise sudanesa.
Vaughan reconheceu que, se a Associação Olímpica Britânica (BOA, em inglês) obrigar os esportistas a assinarem uma cláusula de silêncio para participar dos Jogos, ele o fará, mas até que isso ocorra, declarou que vai "falar o que quiser".
A inquietação da BOA responde à regra 51.3 da Carta Olímpica, a qual estabelece a proibição de qualquer tipo de "manifestação ou propaganda política, religiosa ou racial em nenhuma sede, instalação ou outro local olímpico".
Não há notícia de nenhum Governo que tenha ameaçado o comitê olímpico de seu país a renunciar aos Jogos - medida que seria altamente impopular e contrária aos interesses das próprias administrações, as quais na maioria das vezes investem somas milionárias na preparação de seus atletas para a competição.
O último boicote a uma edição dos Jogos Olímpicos ocorreu em 1988, em Seul, quando a Coréia do Norte se negou a participar pelo fato de não ter tido permissão para organizar o evento junto com seu vizinho do Sul. Cuba, Nicarágua, Albânia, Madagascar, Ilhas Seychelles e Etiópia seguiram a postura norte-coreana.
A regra 28 da Carta Olímpica estabelece em um de seus pontos que todos os comitês nacionais têm "a obrigação" de mandar atletas para Jogos.
Outro tópico da mesma regra diz que os comitês devem "preservar sua autonomia e resistir a qualquer tipo de pressão que os impeça de cumprir com a Carta Olímpica".
A mistura de política e esporte que afeta os organizadores chineses foi uma constante na centenária história dos Jogos. Desde os primeiros Jogos da era moderna, em Atenas (1896), só as duas Guerras Mundiais impediram a realização do evento: em 1916, por causa da Primeira, e em 1940 e 1944, devido à Segunda.
A edição de 1920 ocorreu em Antuérpia, cidade belga que foi destruída durante o conflito bélico. O país-sede negou a participação das nações que foram suas inimigas: Alemanha, Áustria, Hungria, Turquia, Bulgária, Polônia, e as que viriam a formar a União Soviética.
Os alemães não estiveram em Paris (1924) por medo de represálias após seu papel na guerra.
Ainda sobre a Alemanha, os Jogos de Berlim (1936) ficaram marcados pelo uso da competição pelo Governo nazista de Adolf Hitler. O ditador, que esperava ver a glória da raça ariana, assistiu a quatro vitórias do americano Jesse Owens, um negro, nas competições de atletismo.
Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e a conseqüente suspensão dos Jogos de Tóquio (1940) e Londres (1944), o evento foi retomado na capital britânica em 1948 e, como ocorreu após a Primeira Guerra, os perdedores, desta vez Alemanha e Japão, não foram convidados.
A edição de 1956, na cidade australiana de Melbourne, foi boicotada por seis países em protesto pela invasão da Hungria pelos soviéticos.
Nos Jogos de Roma (1960), o COI foi capaz de solucionar possíveis conflitos entre as Alemanhas Ocidental e Oriental, e as fez competir como uma só equipe e desfilar ao som da nona sinfonia de Beethoven.
A celebração dos Jogos da Cidade do México (1968) foi marcada pelo massacre de centenas de pessoas em um protesto estudantil ocorrido dez dias antes na Praça das Três Culturas, quando forças policiais e militares abriram fogo contra os manifestantes.
Vários atletas americanos negros aproveitaram os Jogos de 1968 para protestar contra o preconceito.
Dois deles, Tommie Smith e John Carlos, subiram ao pódio dos 200 metros rasos e ergueram seus punhos envoltos em luvas de cor preta, em alusão ao grupo radical Panteras Negras - atitude que os fez serem expulsos da vila olímpica.
O episódio mais triste da história olímpica moderna aconteceu nos Jogos de Munique (Alemanha), em 1972, quando terroristas palestinos entraram nas dependências israelenses da vila olímpica e, após matarem duas pessoas, tomaram nove atletas como reféns. Exigiam a libertação de mais de 200 presos palestinos.
A entrada da Polícia no local desencadeou um tiroteio que terminou com 17 mortos, entre eles os nove esportistas.
Os Jogos de Montreal (Canadá), em 1976, foram boicotados pela maior parte dos países africanos, em protesto pela participação da Nova Zelândia, que tinha competido na África do Sul em pleno regime do apartheid.
O boicote aos Jogos de Moscou (1980) foi um dos mais marcantes.
Grande parte das potências capitalistas - lideradas pelos Estados Unidos - não foram à então União Soviética e justificaram sua ausência por causa da invasão do Afeganistão pelos soviéticos.
O bloco socialista, com exceção de Romênia e Iugoslávia, devolveu aos americanos o boicote na mesma moeda, em Los Angeles (1984).
Depois da recusa da Coréia do Norte e de seus aliados em participarem dos Jogos de Seul, os de Barcelona, na Espanha (1992), foram os primeiros em muito tempo a transcorrerem com menos turbulências políticas.
Após Nelson Mandela chegar ao poder na África do Sul, o país voltou à competição olímpica; o desmembramento da União Soviética foi solucionado com a participação da chamada "equipe unificada"; e até mesmo os atletas da sancionada Iugoslávia puderam competir sob a bandeira olímpica.