O Salão Internacional do Automóvel de Detroit abriu suas portas nesta segunda-feira para decretar a mudança de rumo do setor automotivo americano que, devido à crise, passou a apostar nos veículos de baixo consumo e compactos para uma recuperação que espera consolidar em 2012. General Motors (GM), Ford e Chrysler, as três grandes montadoras de Detroit, concordaram nesta segunda que o momento é de focar na conquista do mercado de compactos e veículos de tamanho médio, há anos dominado por japoneses e europeus.
Segundo indicou James Bell, diretor de consumidores da GM, "se pode dizer que o gosto dos americanos se 'europeizou'", já que após a crise, que levou os preços da gasolina a níveis recorde, cada vez perdem mais protagonismo os tradicionais utilitários e as caminhonetes nos EUA. Bell cita como exemplo a apresentação, nesta segunda-feira, do Cadillac ATS, um sedã de luxo que reduziu como nunca o tamanho de modelos tradicionais como o CTS para concorrer com o BMW Série 3 e o Mercedes Classe C.
"O grupo GM antes não prestava atenção nestes segmentos de mercado, pois achávamos que se (um veículo) agradasse nos EUA agradaria a todos, mas agora viemos com novas ideias e sabemos que um automóvel não tem que ser grande para fazer sucesso", avaliou.
Ideias semelhantes às de Bell foram ouvidas em cada uma das apresentações nos 2,3 mil metros quadrados do Salão de Detroit, no gigantesco complexo Cobo Center, onde até o dia 14 se reunirão imprensa e representantes do setor, para dar passagem ao público em geral a partir de 22 de janeiro. O otimismo em Detroit é comum a todos as grandes montadoras mundiais que participam do evento, depois que as vendas de veículos nos EUA subiram 10% em 2011, a US$ 12,8 bilhões, à espera que 2012 registre uma nova alta e afaste as lembranças de perdas e quebras de 2009.
O executivo-chefe da Ford, Alan Mulally, disse durante a apresentação do novo Fusion que a companhia espera somar 12 mil novos trabalhadores até o final deste ano e centrar sua expansão nos mercados emergentes. Para isso, apostará em modelos compactos como o Focus, um dos veículos mais vendidos do ano nos EUA, e no Fiesta, ao tempo que usará o Fusion para tentar tirar a liderança dos japoneses Toyota Camry e Honda Accord no mercado americano.
Outra marca que se "europeizou" é a Dodge, do grupo Chrysler, que pelas mãos da italiana Fiat, que controla a companhia desde que a recuperou da quebra em 2009, apresentou o Dodge Dart, um modelo compacto com desenho inspirado no Alfa Romeo.
Reid Bigland, conselheiro do Dodge, reconheceu que seu modelo Caliber não era capaz de concorrer em igualdade de condições no emergente segmento dos compactos, cuja principal reivindicação é o baixo consumo, com autonomias superiores a 17 km por litro em rodovias.
Outra das tendências de uma indústria muito vulnerável à situação econômica são as grandes reduções de preços para competir em um mercado de compactos dominado por Chevrolet, Ford, as japonesas Toyota e Honda e a sul-coreana Hyundai.
Como disse em Detroit o presidente da Fiat, Sergio Marchionne, com os preços atuais do Dodge Dart o grupo não fará muito dinheiro, mas os cerca de US$ 16 mil pelos quais será vendido este novo compacto em 2013 serão vitais para entrar em nichos nos quais as montadoras americanas estavam ausentes. Detroit, que ainda sofre com o fechamento de empresas e a falta de empregos provocadas pela crise no setor, espera que este ano seja o início de uma nova etapa para o setor automotivo americano, agora o segundo maior mercado do mundo após ser superado pela China em 2009.
Paradoxalmente, para o segmento de luxo as tendências são outras, já que devido à força das classes mais abastadas na China e no Oriente Médio, assim como na Europa e nos Estados Unidos, a crise não parece ter deixado marcas.
Para as alemãs Audi, BMW e Mercedes-Benz foi um grande ano nos EUA, no qual seus veículos de luxo foram ao ataque contra o japonês Lexus, enquanto a maioria das empresas deste segmento de mercado de altos preços espera seguir melhorando em 2012.
"Se as condições econômicas se mantiverem como agora, somos otimistas quanto aos nossos resultados", indicou Andre Oosthuizen, vice-presidente da Porsche, que registrou em 2011 aumento de vendas em seus principais mercados: EUA e Europa.
Apesar de seu relativo pouco peso nas vendas totais, o segmento de luxo mostrou boa saúde em Detroit, impulsionado pela importância da China, um mercado que multiplica sua importância a cada ano e cujo idioma é falado cada vez mais nos corredores da capital mundial dos automóveis.