Se você acha que já viu este rostinho em algum lugar, saiba que não se trata de mera coincidência. Desde os oito anos de idade ela circula pelos bastidores – e palcos - da televisão brasileira e hoje, aos 27, Andrea Mayumi Kimura faz reportagens para telejornais, participa da produção e da edição do programa Planeta Brasil - Edição Japão e, principalmente, carrega nas delicadas mãos uma grande responsabilidade: com dignidade e descontração, dar voz aos brasileiros que riem, choram, trabalham e vivem no Japão o dia-a-dia de imigrante. E já que 2010 vai ser um ano movido pela força feminina, nada mais justo do que valorizar esta representante das tantas mulheres que acordam cedo, dormem tarde, sonham e, com o pensamento lá na frente, produzem mais que muito marmanjo por aí.
VITRINE_ É Andrea ou Mayumi?
MAYUMI_ Andrea? Nem sei que é essa pessoa (risos)... desde criança sempre fui chamada de Mayumi.
VITRINE_ Ok. Mayumi, fale um pouco sobre o trabalho que você e o Renato fazem.
MAYUMI_ O Planeta Brasil Edição Japão é um presente que ganhamos da Globo Internacional e que trabalhamos para cuidar com carinho e responsabilidade, é aquela coisa que não deixa a gente esquecer de onde veio e o que quer. Todo mundo vem pra cá com um sonho e a gente faz questão de mostrar pessoas determinadas, que ainda têm consciência daquele sonho inicial e que estão correndo atrás. É o programa que não deixa a gente esquecer disso.
VITRINE_ E você, como é a sua história com a televisão?
MAYUMI_ Começou aos oito anos de idade, quando uma vizinha minha em São Paulo que apresentava um programa infantil começou a me levar para ver as gravações. Era a (cantora e apresentadora) Mara Maravilha e o programa era o “Mara Maravilha Show”. E eu ia junto com ela, ficava brincando pelos corredores do estúdio... E quando tinha gravação de comercial ou gravação de abertura para o programa, ela me colocava e eu participava de tudo isso. Foi ali, vendo os adultos correndo pra lá e pra cá que vi que gostava de televisão. Cada dia que eu ia lá era diferente, via coisas novas e conhecia pessoas diferentes, gente que na época estava fazendo sucesso.
VITRINE_ E depois da fase infantil?
MAYUMI_ Quando eu estava 14 anos, minha vida começou a mudar. Enquanto minhas amigas tinham a rotina de ir pra escola, voltar e fazer outras coisas, eu estava trabalhando na televisão, fazia parte do elenco do programa da Mara, era uma das “Maravilhas” (risos). Então saia da escola e ia correndo, almoçava no carro a caminho da gravação do programa. Ensaiava três dias por semana e nos finais de semana ia gravar. Viajamos o Brasil inteiro fazendo shows e gravando. Aí, como eu ficava lá o tempo todo, aos poucos ela (a Mara) me colocou pra ajudar na produção.
VITRINE_ Teve uma época que você foi morar nos Estados Unidos. Como aconteceu?
MAYUMI_ Desde criança, eu sempre havia feito aquilo que queria, que era televisão. Fiz estágio, fiz faculdade de rádio e tv, trabalhei com produção. Mas uma hora me deu vontade de ver o que havia fora daquela vida. Aí liguei para o meu chefe, que estava fazendo um programa na Bahia - e eu estava fazendo produção de base em São Paulo -, e disse “olha, arruma alguém pra ficar no meu lugar porque daqui a duas semanas estou indo para os Estados Unidos!” Aí fui pra lá sozinha, ver o que tinha, aprender coisas novas. Fiquei dez meses no total.
Os EUA é um país diferente da realidade que a maioria de nós tem no Japão por exemplo; aqui há empreiteiras e tal, mas lá você tem que ir atrás e procurar trabalho sozinho, conhecer e melhorar no inglês porque as pessoas lá falam rápido. Tinha 23 anos, foi um ótimo aprendizado.
VITRINE_ E agora aqui no Japão, em Tóquio. Correria?
MAYUMI_ É, nos dias mais regulares acordo às oito e vou dormir às duas da manhã. Se tiver uma matéria fora do horário normal, tenho que chegar mais cedo e sair mais tarde, e tem dias que saio do trabalho às três da manhã. Mas é assim, a gente tem que dar um jeitinho brasileiro. Marco para sair com meus amigos com um mês de antecedência até, e mesmo assim sou consciente de que no último momento pode aparecer uma matéria que me fará cancelar tudo. Mas acho que tudo isso é essa coisa de sonho, que tenho aos montes e ainda não cheguei onde quero.
VITRINE_ É aquela hora que a gente tem vontade de soltar um palavrão...
MAYUMI K._ Para trabalhar com isso tem que gostar, ser uma pessoa aberta a trabalhar quando todos estão de folga, a conhecer e respeitar pessoas diferentes de você, saber tratar o outro. É também estar sempre preparado para o inesperado e saber improvisar, porque às vezes você chega num lugar e não é nada daquilo que foi planejado, e você tem que tirar uma história dali.
VITRINE_ Além disso, tem que aparecer bem no vídeo.
MAYUMI_ É, mas não dá pra se apegar muito à vaidade. Tenho a minha, mas não é extrema. Hoje em dia me vejo e reparo no meu cabelo, na minha pronúncia. Quando vejo as matérias que eu apresentava no começo acho tudo horrível, mas vamos aprendendo com os erros e buscando a melhora. Me lembro que um dia estávamos gravando uma matéria para a TV Globo, era o terceiro dia de gravação para uma matéria que iria durar 3 ou 4 minutos. E no último dia eu não conseguia fazer o stand-up. Ventava muito, tinha gente obstruindo o ângulo da câmera, o relógio correndo e eu nervosa e errando. Pensei “chega, não dá mais pra melhorar.” Voltei para a edição me sentindo um lixo - por quê não conseguia falar aquelas poucas frases? Não havia justificativa. Aí olhamos a fita e encontramos um stand-up ótimo. Não sei por quê, mas na hora achei que estava uma droga.
VITRINE_ E o que mais dificulta hoje a busca pela qualidade do seu trabalho?
MAYUMI_ A falta de tempo. Se eu pudesse, esticaria o dia para 48 horas para poder fazer melhor.
VITRINE_ O programa tem um blog onde você e o Renato contam um pouco dos bastidores das produções. Como é comunicar-se com as pessoas que te acompanham?
MAYUMI_ Quando eu era criança recebia muitas cartas e respondia direitinho cada uma, aliás as guardo comigo até hoje. E agora há a internet, onde as pessoas deixam comentários ou me escrevem e-mails com suas opiniões, mas o que eu mais gosto é de encontrar as pessoas. É legal, às vezes vêm uns rapazes e dizem “minha mãe gosta de você” (risos)... crianças também vêm falar comigo. E aí a gente vê que essa correria toda está fazendo alguma diferença. Quando isso acontece eu ganho o meu dia.
VITRINE_ Entre aventuras e, consequentemente, alguns micos, tem alguma reportagem que foi especial para você?
MAYUMI_ Muitas! Uma vez mostramos um rapaz que havia perdido o emprego por causa da crise e começou a recolher latinhas na rua. Ia recolhendo as latas nas ruas vestido de camisa e gravata, porque não queria que as pessoas o vissem de má forma, que tivessem medo dele. Tudo o que ele queria era trabalhar para acabar de construir o salão de cabeleireiro que ele tinha no Brasil. Então, vemos que não existe sonho que não possa ser alcançado e nem sacrifício que seja por nada. Esses personagens reais do Planeta Brasil me ensinaram isso, que é preciso fazer valer a pena o fato de estarmos aqui, não ser engolido pela correria e pelas desilusões, não deixar que as condições atropelem a sua essência e quem você é. E com o programa queremos estar cada vez mais perto das pessoas. Me deixa triste ver pessoas vivendo suas vidas sem acreditarem em si mesmas.
VITRINE_ Pergunta importante: casada, solteira ou enrolada?
MAYUMI_ (Risos) Digamos que, no momento, estou solteira.
VITRINE_ No Planeta fala-se muito de saudades. Você tem saudade de quê?
MAYUMI_ (Pausa) Tenho saudades de acordar com meu pai assoviando. Quando morávamos todos juntos ele acordava às seis da manhã, preparava um banquete maravilhoso e ficava assoviando para que a gente acordasse. E sentir saudades para mim é algo positivo. São essas pequenas coisas do cotidiano que me deixam mais feliz; quando estou cansada e alguém me faz sorrir, quando a semana termina e consigo entregar o programa. Saio pela rua aos pulos.
O Planeta Brasil Edição Japão vai ao ar todos os sábados às 19h55 pela IPCTV/Globo Internacional