Histórias de centenas de brasileiros foram exibidas, opiniões foram compartilhadas e informações foram divulgadas, influenciando a vida de milhares de conterrâneos residentes no Japão e também nos Estados Unidos. E apresentando essas histórias está Renato Brandão, um homenzão de 1,90m de altura e sorriso fácil que, após encontrar brasileiros em vários cantos do globo, seja nos 25 países que já visitou ou na Inglaterra e na Austrália, onde morou, conheceu um pouco do “planeta Brasil” feito de sonhos e trabalho que existe neste mundo.
VITRINE_ Rentato, você está com quantos anos?
RENATO_ Pode dizer que passei um pouco dos quarenta (risos)
VITRINE_ E para você, o que é o programa Planeta Brasil?
RENATO_ A função do programa é mostrar vários aspectos da vida dos brasileiros que moram aqui, e também apoiar e informar a comunidade. Ironicamente o Planeta Brasil acaba me ajudando a descobrir quem eu sou porque, honestamente, ainda não sei bem o que significa ser brasileiro, e estou sempre tentando definir o que isto significa para mim. Muitos descendentes de japoneses sentem essa confusão de identidade, mas eles não sabem que isso acontece também com muitos outros brasileiros.
No meu caso, por exemplo, apesar de nascer e crescer no Brasil, havia sempre aquela sensação de que nossa família veio de outro lugar - da Alemanha, de Portugal, da Holanda - acho que isso é inevitável em qualquer país que foi colônia de outro, e depois populado com imigrantes. Acho que o próprio título do programa já sugere essa necessidade que temos de definir quem somos. Mas essa própria indefinição é uma parte do nosso caráter. Às vezes sinto uma grande admiração pela forte ligação que os japoneses têm com sua terra, ou a fé que os americanos têm pelos Estados Unidos, por exemplo. Por outro eu detestaria sentir esse nacionalismo quase doentio que vemos em outros países mas que, no nosso, felizmente só parece existir durante a Copa do Mundo (risos).VITRINE_ E há quanto tempo está no programa?
RENATO_ O Planeta Brasil - Edição Japão já tem mais de dois anos, e eu estou lá quase desde o começo trabalhando com maior ou menor frequência, dependendo dos outros programas que eu fazia e de meu trabalho fora da TV.
VITRINE_ Nos fale um pouco do “planeta Brasil” que você conheceu pelo mundo afora?
RENATO_ Hoje eu sinto bem forte a influência da nossa diáspora, que na minha opinião, já se pode comparar às outras grandes diásporas do mundo, como a judia, a italiana e a chinesa. Essa influência fica bem visível nas redes sociais da internet como o Orkut e o Facebook - além de todos os garçons, operários, empregadas domésticas e músicos brasileiros que todo mundo conhece, vejo cada vez mais conterrâneos exercendo uma influência fortíssima nos países onde moram: um arquiteto na Holanda, uma professora de música nos Estados Unidos, um comissário de bordo que fala cinco idiomas e é baseado na Europa, um web designer nos Emirados Árabes Unidos, um pianista profissional em Paris... é uma lista que não tem fim. Acho que já conseguimos ultrapassar todos os rótulos que tentaram colocar no nosso povo!
VITRINE_ E como você lida com esse negócio de identidade cultural no seu dia-a-dia?
RENATO_ Sou culturalmente esquizofrênico (risos). De fato, por ter morado fora do Brasil por mais da metade de minha vida (Renato também fala cinco idiomas: português, inglês, espanhol, alemão e japonês), eu convivo com vários Renatos, e alguns deles são totalmente gringos... Tem um Renato que fica envergonhado com os beijos e abraços dos brasileiros e outro que se sente mais à vontade meditando num templo de Kyoto do que entre foliões do carnaval do Brasil, por exemplo. Tem coisas que eu penso primeiro em inglês, e alguns aspectos da minha personalidade que já não sei expressar em português. Mas também tenho consciência de que foi o Brasil que me fez como sou hoje, e tento sempre valorizar os aspectos positivos de nossa cultura que os estrangeiros reconhecem e apreciam em minha personalidade. No fundo, gostaria de ser apenas eu mesmo, sem nenhum rótulo ou nacionalidade e sem precisar pertencer a país algum – especialmente na parte humana, nos relacionamentos.
VITRINE_ Você que já nos contou um pouco sobre suas origens humildes e hoje é visto por muitos como exemplo. Isso foi algo que você buscou ou as coisas foram simplesmente acontecendo?
RENATO_ Desde muito pequeno eu tinha plena consciência de que éramos pobres. Meus avós maternos e paternos tiveram um padrão de vida que, por vários motivos, não conseguiram passar aos seus filhos. Então meus pais e tios tinham essa frustração e essa expectativa de que eu conseguisse alcançar - se não o conforto material - pelo menos o nível de educação mais alto e que eles não puderam ter. Isso foi ótimo porque cresci com essa noção de que a educação era a porta de entrada para uma vida melhor.
Meu pai mal conseguia pagar nossas contas, mas me matriculou em um curso de inglês quando eu tinha 13 anos. Eu passava a maior vergonha, porque ele ficava meses sem conseguir pagar a mensalidade, mas hoje agradeço essa iniciativa que ele teve, porque sem o inglês eu não teria conseguido nem sair da periferia. Com 15 anos comecei a trabalhar, e daí em diante paguei pela minha educação. Depois fui conseguindo vários tipos de ajuda como bolsas de estudo, empréstimos de amigos e assim por diante, até conseguir me formar. Com a educação as portas foram se abrindo e logo eu estava convivendo com gente muito mais abastada do que eu. Senti, toda minha vida, uma mistura de vergonha - porque não existe nada de belo na pobreza - e de orgulho, por ter conseguido sair dessa pobreza e, depois, sustentar meus próprios pais. Nada veio com facilidade, mas também reconheço que tive sorte em muitos momentos da minha vida.
VITRINE_ Até agora você apresentou mais de cem programas, participando e conhecendo histórias alheias. Alguma coisa mudou no seu comportamento ou na sua opinião?
RENATO_ Eu estou sempre aberto e tentando aprender com cada pessoa que conheço através do meu trabalho. Às vezes sou surpreendido pelas minhas próprias emoções e sou forçado até a interromper as gravações para enxugar as lágrimas furtivas e incontroláveis e continuar sorrindo na frente das câmeras - a Mayumi (repórter do programa) já me viu tentando disfarçar nesses momentos, mas ela me conhece tão bem que logo percebe, e às vezes ela até me dá um tempo e sai de perto para eu não ficar muito envergonhado (risos).
Sinto uma grande honra em apresentar essas pessoas, e um enorme respeito por elas. Tento me comportar de acordo com a admiração que sinto por todos que se esforçam para aprender e para melhorar como seres humanos. Quanto às minhas opiniões pessoais, tento não dar muita importância a elas e reconhecer que muitas vezes estamos errados, já que nossas palavras nunca são suficientes para expressar a complexidade da vida.
VITRINE_ Você também tem um lado cujo senso crítico é muito presente. Alguma crítica em relação a isso tudo?
RENATO_ Não cabe a mim criticar ninguém, muito pelo contrário - acho que só dá para elogiar os brasileiros que tiveram coragem de sair do país e se adaptar a uma cultura, mentalidade e sociedade completamente diferentes das nossas. Sem falar em todas essas roupas de inverno que a gente tem que usar e a falta que faz uma sopa de mandioquinha (risos).
VITRINE_ Dentro das histórias apresentadas, muitas são de otimismo. Sob um ponto de vista bem realista, como é que você vê esse otimismo das pessoas?
RENATO_ Como um pai olhando para um filho. Às vezes acho que os brasileiros são otimistas ou ingênuos demais, e criam complicações desnecessárias para si mesmos. Outras vezes eu acabo me sentindo inspirado por essa “irracionalidade” que só pode ser descrita como "fé cega", e que tantas vezes parece dar bons resultados. No final das contas, liberdade significa poder fazer seus próprios erros, por isso eu tento olhar para o que as pessoas fazem com muito carinho, sem julgar nem dar palpite. Trabalhar na mídia pode nos deixar cínicos e pessimistas e o único antídoto contra esse cinismo é o amor.
VITRINE_ O Planeta Brasil muitas vezes nos remete à saudade. Para você, o que é saudade?
RENATO_ A saudade para mim é a ilusão de que se estivéssemos num lugar diferente do presente seríamos mais felizes. Antigamente ela me maltratava mais. Mas depois de tantos anos no autoexílio já aprendi a não ficar alimentando essa ilusão. Quando bate uma saudade eu sorrio, olho de frente para ela, agradeço por ter tido tanto amor, tantas pessoas queridas e tanta felicidade no passado, e me despeço de tudo isso fazendo uma força enorme para mudar de assunto dentro da minha cabeça. Quero mais é despertar para cada minuto do presente e encontrar a beleza e o amor que existem em todos os países do mundo e estão sempre ao nosso redor.
O Planeta Brasil Edição Japão vai ao ar todos os sábados às 19h55 pela IPCTV/Globo Internacional
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