Ela está adorando, e eu também. Mas quanto mais passa o tempo mais vou percebendo que os benefícios dessa visita vão muito além da comidinha caseira e do carinho de mãe.
Sem perceber e sem essa intenção, minha mãe está me fazendo questionar vários aspectos dessa vida que levamos, principalmente aqui na capital. Em primeiro lugar o ritmo. Percebi que fazemos tudo correndo. Apesar de me considerar uma pessoa calma, eu estou sempre com pressa – desço as escadas de dois em dois degraus, corro para entrar no trem antes da porta fechar, me apresso para atravessar a rua antes do semáforo abrir para os carros e, na bicicleta, passo voando entre os carros e os pedestres. As Memórias do Autoexílio têm sido uma testemunha disso.
Enquanto isso, minha mãe, apesar de ainda ser relativamente jovem, já tem lá suas dores nos joelhos e uma certa dificuldade para, andar, sentar-se e levantar-se. Por isso tudo que eu faço com ela tem de ser bem mais devagar, mais ou menos um terço da minha velocidade normal.
Temos que sair bem mais cedo de casa e sempre acabamos fazendo bem menos do que o programado, porque não dá tempo. No começo isso me deixava um pouco irritado, porque eu queria maximizar os passeios que faço com ela. Mas logo fui me acostumando com o novo ritmo, e comecei a perceber que era eu quem estava fazendo tudo errado.
Quando eu tinha vinte e poucos anos, em Londres, vi uma peça que me impressionou muito, do alemão Peter Handke e que se chamava “The Long Way Round” ou, numa tradução livre, “O Caminho Mais Longo”. A peça falava sobre nossa obsessão com a pressa e como isso está destruindo as relações entre os seres humanos. Na época eu entendi a peça de uma maneira racional, mas acho que hoje entendo melhor do que nunca o que o autor queria dizer com a obra.
Como eu, milhões de pessoas vivem correndo contra o tempo, tentando fazer o máximo possível no espaço de um dia, sempre com pressa e sempre sem tempo para coisas essenciais que acabam virando um luxo, como por exemplo: comer devagar, passear a pé, ler um livro, assistir um filme ou, simplesmente, não fazer nada de vez em quando.
Os computadores nos ajudam a economizar muito tempo. Lembra das cartas, do correio, dos bancos e de tantas outras coisas que fazíamos “ao vivo” antes da internet? Pois é, hoje é tudo ‘online’. Mas, ironicamente, os próprios computadores acabam consumindo todo o tempo livre que ganhamos.
Quer um exemplo? Pergunte a si mesmo com quantos amigos você mantém contato diariamente, através da internet. Antigamente eu mantinha contato com a família e uma meia dúzia dos amigos que deixei no Brasil, através de cartas e, de vez em quando, um telefonema. Hoje são centenas! Além das mensagens eletrônicas (ou “e-mail”, para quem gosta dos anglicismos), há toda a variedade de maneiras de ficar em contato com nossos amigos através da telinha do computador: as chamadas redes sociais (como Orkut e Facebook), os sistemas de conversa virtual, ou chats, e os telefonemas de graça e ainda com câmeras.
A situação chega a um ponto tão ridículo que, ao ligar o computador, eu preciso ir logo desligando, ou me fazendo ‘invisível’ em todos os maravilhosos canais de comunicação, senão o pouco tempo que me sobra é imediatamente ‘roubado’ pelos queridos amigos e parentes me ligando no Skype, mandando mensagens no Orkut, Facebook, Messenger e o ‘diabo a quatro’, como dizia a minha vó... Antes eu ainda tentava ser educado e escrevia aquelas mensagens típicas: “Ih, agora não posso falar, depois a gente bate um papo”, ou: “estava de saída mas legal ver sua mensagem/ouvir sua voz/ver o seu rosto... posso te ligar/escrever/falar no Skype mais tarde?”. Mas depois desisti, porque essa simples gentileza começou a tomar cada vez mais o tempo que eu tinha no computador. Agora ‘finjo que não estou’.
Mas, voltando à visita da minha mãe, o evento está mudando meus hábitos, aos poucos e de maneira sutil. Estamos comendo mais em casa – o que já faz a gente diminuir bastante o ritmo – e estou finalmente conseguindo ver aquela pilha de DVD’s de filmes brasileiros que fui recebendo de amigos e comprando nas viagens ao Brasil sem nunca ter tempo de assistir: “Antonia”, sobre as cantoras de rap da periferia de São Paulo; “Zuzu Angel”, uma maravilha sobre a história real da mulher que perdeu o filho durante a ditadura militar; o clássico do Arnaldo Jabor “Tudo Bem”, dos anos 70, com Fernanda Montenegro e Paulo Gracindo (pena que o Jabor se meteu a ficar falando de política ao invés de fazer filmes...) e um documentário lindo sobre Martha Argerich, a incrível pianista argentina.
Tenho certeza que estou deixando de fazer um milhão de outras coisas, e minha caixa de entrada de mensagens eletrônicas está com quase quatro dígitos, mas estou adorando essa fase. Pensei que o Japão pudesse ser uma influência positiva para a minha mãe, mas parece que está sendo o contrário... pelo menos para mim.