Escola japonesa


Publicado em  21/06/2007 19:21

Namoro na escola, pode?

Educadores dizem que relacionamento entre alunos é inevitável, mas defendem a adoção de limites e regras

Kanto , Gunma , Oizumi - Thassia Ohphata/ipcdigital.com

Thassia Ohphata/IPCJAPAN
Nathalia-e-Edson-estao-juntos-ha-um-ano-e-estudam-na-mesma-escola
Nathália e Edson estão juntos há um ano e estudam na mesma escola

A adolescência é a fase das descobertas e experiências. Nessa idade tudo é novidade e não é fácil conter os impulsos naturais típicos dos jovens. Superada a fase em que as crianças têm "horror" ao sexo oposto, surge o momento de encantamento pelo outro. É nessa hora que a identidade sexual começa a se definir, e os namoricos com beijos e mãos dadas são apenas o começo. Mas o que acontece quando os adolescentes decidem viver uma paixão dentro da escola?

Juntos há um ano, Nathália Oshiro Okawa, 14, de Kandatsu (Ibaraki), e Edson Issao Yorioka, 17, de Joso (Ibaraki), sabem bem o que é isso. "Os alunos menores viram que estávamos juntos e contaram para os professores. Levamos bronca deles, e no começo todos ficavam muito no nosso pé", lembra Nathália, estudante do nono ano do ensino fundamental. "Não tiramos a razão deles. Aqui é uma escola, não um lugar para namorar", acrescenta Edson, aluno do segundo ano do ensino médio.

Foi por causa dessa consciência que o casal ganhou a confiança dos professores e da direção do colégio onde estudam, a Escola Pingo de Gente, de Ibaraki. "Hoje, é diferente. Mostramos que temos consciência de que temos um limite, de que precisamos respeitar as regras da escola e que precisamos ser discretos por causa dos alunos pequenos", diz ele. 

Mas apesar dessa confiança, nada impediu que o casal levasse sermões por causa de "pegações". Nathália confessa que já foram pegos em flagrante numa troca de carinhos. "Levamos uma bronca para não fazermos mais isso", conta. 

Por morarem em cidades diferentes, a escola é um dos únicos lugares que o casal pode se encontrar. "Ter a namorada na mesma escola é bom, dá para ver sempre", revela Edson. 

PERMITIR OU PROIBIR?

Entre os educadores ouvidos pelo International Press há consenso de que namoro na escola é inevitável, desde que sejam respeitados os limites determinados pela direção. "Ficar e gostar de alguém e isso ser recíproco é a coisa mais gostosa da vida. Não podemos reprimir isso dentro do âmbito da escola, mas os alunos sabem que não podem escancarar, com beijos na boca, por exemplo. Admitimos o namoro, mas de forma mais comportada", revela Maria Shizuko Yoshida, diretora da Escola Pingo de Gente, de Shimotsuma (Ibaraki).

As regras das escolas são parecidas, mas o que varia é a intensidade do acompanhamento dos alunos. "Não proibimos. Pelo menos aqui, não temos a necessidade da vigilância. Os alunos estão conscientes do papel deles e isso facilita muito o nosso lado", afirma Francisco Pereira França Neto, diretor do Colégio Pitágoras no Japão. 

Já na Escola Pingo de Gente, por exemplo, todos os professores fazem a "fiscalização" dos estudantes em todos os ambientes do colégio. "Os alunos ficam o dia todo na escola e isso exige uma vigilância mais intensa e freqüente, principalmente nos horários livres, como intervalos e almoço", explica a diretora Maria Shizuko. "Trabalhar com jovens é uma responsabilidade grande e a partir do momento que aceitamos ter eles no nosso ambiente de trabalho é preciso ter toda uma estrutura para acompanhá-los", acrescenta ela.

A IMPORTÂNCIA DO DIÁLOGO

O diálogo nesses momentos é essencial. "Quando verificamos que surge um casal na escola, chamamos eles, conversamos e reforçamos as regras que eles já sabem. Conversamos também com os pais, para que eles também estejam cientes", justifica Maria Shizuko.

Sandra Minamoto, vice-diretora do Instituto Educacional Centro Nippo Brasileiro, de Oizumi (Gunma), compartilha a mesma opinião. "Não tem como proibir que exista, o que não permitimos é a manifestação dentro da escola. Conversamos abertamente com eles e dizemos a importância de preservarem a relação e que ninguém precisa assistir as manifestações de carinho". 

No Japão, pelo fato dos alunos passarem mais tempo no ambiente escolar do que com os próprios pais, a relação entre professores e alunos é muito mais próxima, o que facilita o diálogo. "Aqui todos se conhecem, ao contrário do que ocorre no Brasil. É difícil não perceber isso, ou seja, acabamos fazendo uma vigilância maior dos alunos do que a realizada pelos próprios pais", analisa Sandra. 

ESCOLAS JAPONESAS

Enquanto o assunto de namoro é discutido com naturalidade nas escolas brasileiras, nos colégios japoneses a questão quase não é comentada. "Pelo menos nos dois anos em que fui professora do chuugakkoo, nunca ouvi comentários sobre a questão de namoro na escola. Os japoneses são mais reservados, ao contrário de nós brasileiros que vemos essa questão com mais naturalidade", nota a professora e pesquisadora Nilta dos Santos Dias. "Nunca vi algum caso de namoro nesse período, mas percebo que não há abertura para isso", completa.

A professora observa que os adolescentes brasileiros, principalmente as garotas, começam a explorar mais cedo a vaidade e a sensualidade, ao contrário dos japoneses. "Os alunos japoneses da quinta e sexta série do shoogakkoo e do chuugakkoo, por exemplo, ainda são muito infantis, ao contrário dos brasileiros", relata.


Veja mais
Bookmark and Share Enviar Enviar       Imprimir Imprimir    Comentar Comentar  Corrigir Corrigir   Diminuir fonte Aumentar fonte    

COMENTÁRIOS

COMENTE ESTA NOTICIA
caracteres podem ser digitados
TERMOS DE USO: O ipcdigital.com tem o prazer de oferecer a seus usuários a oportunidade de fazer comentários. Procure ser polido e educado nos seus comentários para que possamos mantê-lo no site. Comentários que contenham ameaça, ofensa, palavrão, apologia ao crime ou racismo serão deletados.Assim como piadas sobre tragédias pessoais. No entanto, devido à característica interativa da internet é impraticável para nossa equipe monitorar todos os comentários. Como o ipcdigital.com não controla os comentários enviados por seus usuários, eventualmente você poderá encontrar comentários ofensivos ou inapropriados. Caso isso ocorra, clique aquie denuncie.