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Silvia Kikuchi/IPCJAPAN
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Os encontros no knit café Buono (Tokyo) reúnem cerca de 30 pessoas em média, uma vez por mês
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São grupos de pessoas que se reúnem para tricotar e comer. Pode ser em um bar, restaurante ou salões próprios. O importante é que quem participa vai com a intenção de passar momentos agradáveis na companhia dos outros, além de aprimorar sua própria técnica e ensinar os iniciantes.
Para um país com tantas coisas novas surgindo no dia-a-dia, até que um knit café não é lá grande novidade.
Não seria, se não fosse o fato de que os homens também participam deles. "Comecei a fazer tricô em janeiro deste ano e já fiz várias blusas de lã para meus netos", disse o aposentado Yasuhiro Naito, ao mostrar um suéter e um cardigã com bordados de mascotes.
Naito, que foi designer gráfico durante 30 anos na editora Benesse Corporation, afirma que sempre gostou de blusas de lã. Quando conseguiu mais tempo livre, procurou o knit café para aprender sobre a arte. "Incrível, cheguei aqui sem saber nada e me ensinaram tudo de graça."
No knit café em Ichigaya, organizado por funcionários da editora Vogue, os encontros são realizados uma vez por mês. Em média, cerca de 30 pessoas se reúnem no salão anexo do aconchegante restaurante italiano Buono, dentro do prédio da Vogue.
"As pessoas vêm para cá para relaxar do estresse do dia-a-dia", disse Kumiko Aoki, coordenadora do grupo e editora da Nihon Vogue-sha. Segundo ela, os knit cafés são comuns em países da Europa e América do Norte. Uma das explicações para o sucesso no Japão pode estar ligado com o fato de que a arte do tricô envolve movimentar os dedos com destreza, uma peculiaridade dos japoneses. "Está comprovado cientificamente que mexer os dedos é um bom remédio para manter o cérebro jovem", disse Kumiko, mas ela reforça que não é só isso.
*****ENTREVISTA COM MITSUHARU HIROSE*****
Em entrevista ao International Press, o estilista de tricô e editor-chefe das revistas de artesanatos da Vogue do Japão, Mitsuharu Hirose, afirma que embora o número de knit cafes seja pouco, começam a fixar-se cada vez mais entre os japoneses. "Funcionam como um instrumento de comunicação, onde não há barreiras de idiomas, cria-se amizades e um ajuda o outro", disse.
International Press: Os knit cafés são populares no Japão, ou tem que gente que nunca ouviu falar deles?
Mitsuharu Hirose: Em questão de números, ainda são poucos. Mesmo quando faço uma referência ao termo "knit café" nos eventos que compareço, ainda encontro pessoas que nunca ouviram falar deles. Para muitos ainda é novidade o fato de formar um grupo para tricotar e ao mesmo tempo, comer e beber. Mas os knit cafés significam muito mais do que isso, são como uma ferramenta de comunicação, onde não há barreiras de idiomas, cria-se amizades e um ajuda o outro.
IP: Nos knit cafés que visitei, constatei a presença de pessoas de todas as faixas etárias, principalmente jovens...
Hirose: Fazer tricô é um ato extremamente fácil. Veja em quantas coisas pode se transformar uma simples linha. É essa simplicidade que a torna tão atraente. Os jovens não são diferentes das outras faixas etárias. Cada um sabe que sua peça será única no mundo e é também uma forma de expressão individual.
IP: Como explicar esse interesse pelos trabalhos manuais?
Hirose: Há cerca de 40 anos, o Japão era um país pobre. Não havia lojas de conveniência e se você quisesse um casaco, tinha que pedir para alguém fazer. Mas aos poucos começou a ficar mais fácil adquirir esses produtos, que de tão comuns vão para o lixo, assim que é comprado um novo. Em uma nova era, totalmente mecanizada, e a nova geração sente falta dos produtos "caseiros", feitos pelas mãos de alguém. Quem é que fica indiferente quando recebe de presente uma peça artesanal? Imagine o sorriso dos pais quando ganham uma blusa de tricô dos filhos.
IP: Os knit cafés existem pelo Japão todo?
Hirose: Sim, desde Hokkaido às cidades mais ao sul. Muitos restaurantes e bares descobriram que ao inaugurar um knit café a clientela aumenta e torna-se fiel.
IP: Tem idéia da quantidade de pessoas que fazem tricô no Japão?
Hirose: São muitos, na casa dos milhões. Mas a população de japoneses que realmente domina a arte é estimada em 1 milhão. Só na Associação Japonesa para a Cultura do Artesanato (NAC), contamos com 25 mil associados.
IP: Desses, quantos são homens? E os jovens?
Hirose: Aqueles que se registram e frequentam as aulas não passam de 100 no caso da NAC, mas com certeza, muitos outros tricotam e não estão nessa contagem. Também não há como contabilizar os jovens, mas desde que começamos a divulgar o tricô mais simples, com os dedos, sem o uso da agulha, aumentou o número.
IP: É errada a idéia de que o tricô é coisa de mulher?
Hirose: Os profissionais de tecelagem, tinturaria e quimono são homens, por tradição. O tricô é uma arte que foi trazida de fora (do Japão), já com uma imagem de que era voltado às mulheres. Durante a guerra, as peças de tricô eram feitas e vendidas pelas mulheres como uma forma de subsistência, o que enraizou mais ainda a idéia de que a arte era voltada a elas...
IP: Qual é a característica do tricô japonês?
Hirose: Nos países onde o tricô é mais tradicional existem vários estilos que caracterizam uma região, cultura ou povo. No Japão, como a arte ainda é nova, não existe isso, mas o tricô é procura valorizar o "fashion". Nos países frios, as blusas de lã utilizam basicamente o fio de lã e as agulhas, mas aqui é diferente. Uma mesma peça pode ter pontos de tricô e crochê, linhas leves, cores e designs mais estilizados.
NA VIDA PESSOAL...
IP: Como nasceu o interesse pelo tricô?
Hirose: Quando era criança, ajudava minha avó a enrolar a linha, desfiar enquanto ela ficava tricotando... às vezes me ensinava alguns pontos. Certa vez, no chuugakkoo, ocorreu-me a idéia de fazer um cachecol. Depois fiz um cardigã e dei de presente para minha irmã mais nova. Por onde ela ia com a blusa, as pessoas elogiavam. Acho que isso me incentivou muito.
IP: Entre o passado e o presente, o tricô continua tendo o mesmo valor?
Hirose: Uma coisa mudou: agora o artesanato virou profissão para mim. Já não posso fazer apenas roupas que eu mesmo gostaria de usar. Antes de criar uma peça, preciso avaliar se ela é atraente e fácil de fazer. Mas uma coisa nunca mudou nesses anos todos: minha paixão por essa arte.
IP: Como você explica seu sucesso?
Hirose: É o resultado de um trabalho voltado a preservar a cultura do artesanato. Não dá para ficar esperando que tudo caia do céu, você mesmo tem que correr atrás. Por isso foi criada a Associação Japonesa para a Cultura do Artesanato (NAC), para transmitir a arte corretamente. Há 13 anos, comecei a participar dos programas da NHK (emissora pública de televisão) de artesanato. Na época o fato foi recebido com surpresa pelos japoneses, acostumados com personagens mulheres nessa área. Mas nunca pensei em desistir por causa das críticas. Desde criança escuto "mas você é homem...". Claro que no começo encontrei dificuldades, pois as pessoas nem sequer me davam atenção pelo fato de ser homem. Mas o esforço foi recompensado, pois agora sinto que há uma acolhida muito melhor em relação ao artesanato em si, e os knit cafés são cada vez mais comuns. Hoje, onde vou, as pessoas me reconhecem como profissional da área.
IP: Se o mundo acabasse amanhã, qual seria seu último artesanato?
Hirose: Até hoje, a maioria das minhas obras foram roupas. Mas se o mundo fosse acabar, gostaria de deixar algo que durasse bastante. Poderia ser uma peça de tricô feita de arame, em vez do fio de lã. Algo que resista ao tempo e transmita uma mensagem se fosse resgatada.
Família: vive com a mãe
Cor: branca
Hobby: ir ao teatro, badminton e equitação
Comida: peixes e verduras, evita carne
Signo: virgem
Tipo sanguíneo: B
Nasceu em: 1955, em Saitama
Mitsuharu Hirose, vice-diretor da Associação de Cultura do Artesanato do Japão (NAC) e knit designer. Trabalha como editor chefe da revista de artesanato da Nihon Vogue-Sha. Desde 1993, participa dos programas de artesanato da NHK. Alto, elegante e o porte refinado, é conhecido no Japão como "o jovem nobre do artesanato".
| Os diagramadores do International Press, Roger Hiyane e Julio Shiiki, mostram em seus blogs, como foi o processo para montagem da página feita para o jornal (edição 789, de 4/11/2006) |