| Tokyo, 25 Maio 2012 | |
| A voz do bailão. Há oito anos, gaúcho anima bailes da comunidade | |
| COMUNIDADE | |
| Alexander Kanashiro / ipcdigital.com | |
Há oito anos, José Romualdo Shikuta de Araujo, 50, morador de Kariya (Aichi), encontrou uma forma de matar a saudade e preservar as raízes da terra natal no Japão. Pelo menos, uma vez por mês, depois de um dia cansativo de trabalho, o gaúcho de Erechim, veste a bombacha (calça), a guaiaca (bolsa feita de couro), o poncho (manta), o chapéu e se prepara para animar o bailão “Tradição Baileira” com o melhor do vanerão, o chamamé e o sertanejo. Lá é conhecido como “Gauchão. O locutor apaixonado pelo sistema bruto, rústico e sistemático”. A fama tem um motivo. Da mesma forma que elogia quem faz bonito na pista de dança, repreende com seriedade quem não se comporta direito na casa de show. “O meu bailão é o bailão da família brasileira na terra do sol nascente. É um evento para o pai de família que esta há 10 anos aqui e não sai para a balada e aproveita para levar a esposa e os filhos que já estão casados. É um ambiente familiar”, explica. Para Gaúcho, não há nada mais bonito do que promover uma festa onde todo mundo se diverte curtindo a músicas que marcaram gerações no Brasil. De acordo com ele, até mesmo que nasceu em regiões como o norte e o nordeste acaba se interessando pela cultura do sul do país. Atualmente os bailes acontecem na casa Centurion, na cidade de Kuwana (Mie). O sucesso recente da música sertaneja nas capitais e na mídia alcançou os brasileiros no Japão e repercute cada vez mais na comunidade. A cada edição do evento em Mie, um público fiel vindo de várias localidades sempre marca presença. “Temos três comitivas sertanejas. ‘As Bandidas’ (10 membros), ‘Os Marvados’ (15 membros) e ‘Nóis é Nóis’ (30 membros), além das academias de dança que levam seus alunos para praticar e ensinar quem não sabe dançar”, diz. A animação fica por conta da banda “Mix Country”, que assim como o próprio nome diz canta vários estilos do sertanejo, sendo os mais pedidos pelo público, o xote, o chamamé, o vanerão e recentemente o sertanejo universitário. Mas apesar do aumento do interesse pelo terceiro grande movimento da música sertaneja, Araujo faz questão de deixar bem claro que gosta mesmo é da música de raiz. “No Brasil, estão modificando tanto e estão esquecendo as raízes. Minha briga nos bailes é para manter vivo o vanerão”. HISTÓRIA A história de Gaúcho no Japão começou em 2001, quando chegou com a esposa nikkei e dois filhos. Até hoje ele mantém o hábito de beber chimarrão diariamente antes de ir para o trabalho. “Saio de casa às 4h, e só volto por volta das 23h. O chimarrão é a primeira bebida do dia”, frisa. Nos dias de folga ao sair pela rua trajando as típicas vestimentas gaúchas, o brasileiro é requisitado pelos japoneses para tirar fotos. “Em todo lugar é assim. Já fui para Nagano e Shiga fazer locução e a situação se repete”, lembra. O primeiro evento aconteceu em 2003, em Kariya (Aichi), com o Bailão Canto da Terra que promovia ao lado de dois sul-mato-grossenses. A mistura dos ritmos do chamamé e vanerão deu certo e a casa de show recebia um público de até 1300 pessoas em duas edições mensais. Pelo barulho no término das apresentações, Gaúcho foi obrigado a interromper o evento em 2009. Depois transferiu o bailão para o Samba Brazil em Nagoya. Com o fechamento da casa, promoveu bailes na Hype também na capital de Aichi, antes da Centurion em Kuwana, atual sede. Gaúcho só lamenta o fato de não ter conseguido passar a tradição gaúcha para o casal de filhos que adaptados à cultura japonesa preferem o pop nipônico ao som dos pampas. “O menino gosta de J-Pop e a menina da Lady Gaga. Se coloco minha música para eles ouvirem, falam que o gaúcho fala muito rápido e não conseguem entender”, desconversa. Em oito anos de realização, seus bailes ficaram marcados por ser o ponto de encontro de vários casais que se conheceram e estão juntos até hoje. “Uns até falam que vou virar um santo casamenteiro”, brinca em tom de brincadeira garantindo que não quer competir com Santo Antônio. O próximo evento está marcado para o dia 9 de julho em Kuwana (Mie). |
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