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Tokyo, 25 Maio 2012
Sociedade Multicultural é debatida em Nagoya
CONVIVÊNCIA MULTICULTURAL
Japão - Aichi - Nagoya - /
 

Há sete anos, a japonesa Yuko Kawaguchi se mudava de Toyota para Nagoya, Aichi. Interessada nas questões multiculturais começou a participar como voluntária no ensino e reforço da língua japonesa para crianças estrangeiras numa escola brasileira da região e no Kyuban Danchi, conjunto residencial com 1475 apartamentos dos quais 30% são ocupados por estrangeiros vindos da América do Sul, Filipinas, Tailândia e Nigéria.

Cursou especialização em educação para obter licença para lecionar em escolas primárias e depois de quatro anos participando de seminários e simpósios fundou em 2008, a NPO Manabya@Kyuban. Seu objetivo era realizar em Nagoya um trabalho semelhante feito por associações na cidade de Toyota.

A associação atende os moradores com consultas de dúvidas referentes ao cotidiano, dá aulas de língua japonesa para crianças, jovens e adultos, e, dessa forma vem colaborando para a boa convivência entre japoneses e estrangeiros. “Não é o Manabya que desenvolve o Kyuban, mas o Kyuban que desenvolve e fortalece a associação”, diz Yuko que conta com fundos governamentais e recursos próprios para manter a entidade.

“E quando falta alguma coisa preciso fazer arubaitos para não interromper o trabalho da NPO”, revela. A história da fundação da entidade foi apresentada ontem (6), no Centro Internacional de Nagoya (NIC) durante o seminário “O que visa a sociedade multicultural do Japão?” acompanhado por 180 pessoas. Representantes de outras três NPO’s mostraram seus esforços em prol do multiculturalismo no país e debateram o tema sob coordenação do professor Shigehiro Ikegami da faculdade de política e gestão cultural da Universidade de Arte e Cultura de Shizuoka.

Ikegami mostrou que o número de brasileiros com visto permanente em Shizuoka aumentou claramente no período entre 2007 e 2009, passando de 12.9% para 23.5%. Já o daqueles com visto de até três anos caiu de 20.1% para 13%.

“Percebemos que na província há dois grupos. Um que não retorna por falta de opção no Brasil e outro que pretende ficar por vontade própria”, explica. O pesquisador disse também que durante viagem de trabalho à Nova Iorque em 2009, viu no aeroporto muitos brasileiros retornando apreensivos e preocupados com o futuro no país de origem.

Ele defende que o conceito de design universal que objetiva a utilização de ambientes e produtos pelo maior número de pessoas independente da idade, situação ou habilidade é um dos caminhos para o multiculturalismo nas empresas e na sociedade.

“É um conceito que trabalha a acessibilidade tanto para mulheres, deficientes, idosos, crianças, estrangeiros, enfim, para a sociedade sem exclusão”, comenta. “Em Hamamatsu, onde vivo, sinto que há uma parede para a integração. O pensamento do século 21 não deveria ser o de isolar, mas o de integrar”, defende.

A senhora Massayo Suzuki criou há 20 anos, no bairro de Naka-ku em Nagoya, a associação “Kotoba no Kai” para o ensino do idioma japonês para estrangeiros e que atende 120 pessoas de 25 países. Ela relatou que acreditava que os brasileiros não davam continuidade aos estudos até ser convidada para ensinar funcionários de fábricas terceirizadas da Toyota.

“Abrimos 40 vagas e mais de 100 pessoas vieram nos procurar. A maioria saía do yakin (período noturno) para ir direto às aulas no sábado de manhã. Percebi que estava enganada. Eles tinham interesse, mas não tinham tempo”, lembrou citando um episódio onde uma aluna telefonou às 6h30, solicitando uma aula. Diante de vários pedidos Massayo implantou mais um horário durante a semana passando a ensinar atualmente as quartas e sextas-feiras.

Toshiaki Hamamoto, presidente da Sociedade Multicultural do bairro de Midori-ku, também em Nagoya, visitou aos 58 anos, a China pela primeira vez, terra de seus ancestrais e conta que foi muito bem tratado. No retorno ao Japão, conheceu um casal de imigrantes, cuja filha lhe deu aulas do idioma chinês e para a qual ensinou um pouco da língua japonesa.

“A garota estava com cinco anos. Quando recebi uma banana de presente agradeci e comecei a chorar”, relatou. “Quero dar prosseguimento a essa comunidade. Fazer uma sociedade sem diferenças caminhando para uma nova descoberta”, desejou Hamamoto que realiza festivais, promove atividades voluntárias e ensina a língua japonesa gratuitamente.

Representando a Sociedade Filipina no Japão, fundada em 1985, o professor de escola internacional para crianças filipinas, Nestor L. Puno, apresentou dados de sua comunidade. O número de filipinos no país é de 210 mil, dos quais 25.341 vivem em Aichi e 7.129 em Nagoya. A associação também promove eventos de integração e atividades educacionais. “Temos muita pobreza em nosso país e somamos mais de 10 milhões de trabalhadores migrantes em 200 países”, afirmou.

Conforme Puno, a educação continua sendo um desafio para as crianças filipinas. “Mesmo estudando por um ou dois anos elas não conseguem entrar e acompanhar o ritmo da escola japonesa. Desejaria que elas pudessem passar dois dias em escola japonesa e dois em escola filipina até se adaptarem”, propõe.

Para que o multiculturalismo saia da teoria dos projetos governamentais e chegue à sociedade japonesa, Massayo pediu para cada participante do seminário levar a discussão aos seus amigos. “Sem o conhecimento do multiculturalismo eles nunca vão chegar até nós. Nós é que temos que chegar até eles (japoneses)”, destacou.

Puno, acredita que a discussão deveria começar pelos próprios estrangeiros. “Muitas vezes os estrangeiros não entendem a idéia de sociedade multicultural. Devem conversar, dialogar”, sugere. Hamamoto defende que as pessoas deveriam se abrir mais umas com as outras. “Ouvindo os problemas dos japoneses quem sabe assim se cria um relacionamento entre eles”, aponta.

Yuko quer trabalhar ainda mais pelo rompimento da parede que separa ambos os povos da construção de uma sociedade multicultural. “Quero mover nem que seja um milímetro a vontade das pessoas para mudar isso”. E Ikegami encerrou o debate lembrando que o processo de multiculturalismo deve partir da própria pessoa para chegar ao ambiente onde ela vive. “O Japão também tem muito a aprender com a vinda dos estrangeiros. Não é uma pessoa que vai vencer, mas várias que vão vencer juntar”, finalizou.

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