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Tokyo, 25 Maio 2012
Ex-alunas de projeto educacional se tornam voluntárias
EDUCAÇÃO
Japão - Gifu - Minokamo - /
 

Em Minokamo, Gifu, quatro estudantes de séries e idades diferentes, mas com a mesma história em comum dedicam seu tempo livre em aulas de reforço escolar para crianças estrangeiras no Centro de Orientação aos Estrangeiros da cidade. Thaís Yukari Kishimoto, 15, as irmãs Sandra Mika, 15 e Alexandra Miki Yamaguchi Aya 17, e Nayara Katsumi Kinjo, 18, enfrentaram diversas dificuldades na adaptação ao sistema educacional japonês na infância e, hoje, cursando o ensino fundamental, médio e superior respectivamente retribuem o apoio recebido do projeto Centro de Apoio Educacional (Caed) realizado pela NPO (new) Associação Amigos do Brasil.

A iniciativa começou em 2006, e desde então, atende crianças a partir dos seis anos, do ensino primário e ginasial japonês equivalente ao ensino fundamental brasileiro. Conforme a educadora Alina Kinjo, dos mais de 30 participantes que passaram pelo curso apenas um não seguiu para o ensino médio por opção pessoal. Thais Yukari Kishimoto nasceu no arquipélago e participa do Caed desde o começo do projeto. Ela diz que durante os primeiros anos da escola tinha dificuldades no aprendizado da matemática.

“Nunca gostei de lidar com números, mas fazendo treinos de cálculos diariamente fui me acostumando e aprendi a gostar da matéria”, relata a jovem que agora transmite sua experiência para os novos alunos do Caed após as aulas da escola. Em abril, ela ingressa junto com a colega Sandra Miki Yamaguchi Aya na escola Higashi Chuugakoo, colégio onde vários veteranos do projeto já passaram.

Sandra e a irmã Alexandra chegaram em Minokamo no ano de 2006, vindas da província de Ibaraki. De acordo com ela as duas logo fizeram amizades e se enturmaram com facilidade na escola. Já com as lições de casa a situação foi bem diferente. “Para falar a verdade sentia dificuldade em tudo e não conseguia fazer as tarefas sozinha”, lembra. Para Alexandra, a dificuldade estava em entender o vocabulário usado pelos professores em sala.

“Eles não estão acostumados a ensinar estrangeiros por isso usam expressões que para nós são difíceis de entender em japonês. Mas no Caed os professores estão preparados para isso e explicam de uma maneira mais fácil. Foi assim que conseguimos pegar o ritmo”, analisa a estudante do 2º ano do ensino médio que pretende cursar hotelaria, sem deixar o voluntariado de lado. “Senti a dificuldade que é passar na prova de admissão do ensino médio e por isso venho aqui ajudar. Se não fosse pelo projeto, acho que teria abandonado os estudos e estaria apenas trabalhando ou estudando à noite”, diz agradecida.

No ranking de sua série, Alexandra é uma das cinco estudantes com as melhores médias e confessa que estuda até a meia-noite quase todos os dias. “Em época de prova chego até a engordar porque só como e estudo”, brinca.

O professor responsável pelo Caed Takeshi Kamiya, 28, teve contato com a cultura do Brasil pela primeira vez há cinco anos quando fez amizade com um brasileiro durante intercâmbio no Canadá. Ele visitou o país um ano depois e de volta ao Japão começou a participar como voluntário da NPO (new) Associação Amigos do Brasil entre 2008 e 2009. Ele confessa que encarou seu trabalho como uma missão a ser cumprida.

“A primeira impressão que tive delas era a de que falavam demais, eram barulhentas e não tinham disciplina”, comenta Kamiya que, por ser jovem era visto pelas crianças mais como um amigo do que como professor. “Foi preciso um pouco de tempo para que me vissem com seriedade e que estávamos lá para trabalharmos juntos visando o mesmo objetivo”, acrescenta.

PIONEIRA DO CAED CHEGA À UNIVERSIDADE

A implantação do Caed há cinco anos surgiu pela necessidade que o casal Edilson e Alina Kinjo sentia de uma estrutura que apoiasse a inserção das crianças brasileiras em escolas japonesas baseado no exemplo da filha. Nayara Natsumi Kinjo chegou ao país com cinco anos. Estudou dois e escolas brasileiras, mas foi matriculada na japonesa quando seus pais decidiram fixar residência no país. “Não sabia falar japonês e as disciplinas eram todas diferentes. Era a mais velhas do grupo e não havia tantas crianças brasileiras como agora. Enfrentei todas as dificuldades possíveis”, afirma Nayara.

Além do projeto contava com aulas particulares todos os dias da semana. “Colocamos um professor para vir em casa para ajudá-la. Precisávamos motivá-la para não desistir no meio do caminho e abandonar os estudos”, diz a mãe Alina. O sacrifício dos pais pela educação da filha deu resultado e no ano passado, Nayara ingressou na Universidade Kinjo Gakuin Daigaku em Aichi, no curso de Serviço Social. “Escolhi essa área porque vendo as minhas dificuldades e as dos outros quero fazer algo par ajudar o maior número de pessoas”, destaca Nayara que quer se especializar no trabalho com estrangeiros e que quase diariamente acompanha as crianças na sala do Caed em Minokamo.

Se depender da força de vontade dessa geração em colaborar com a educação das crianças estrangeiras a continuidade do projeto pelos próximos anos está garantida. “Vou poder me aposentar tranquilamente”, conclui Alina com bom humor.

As inscrições para a turma 2011-2012 do Caed já estão abertas. As aulas acontecem todas as segundas e quartas das 15h30 às 18h, para crianças do shoogakoo e segundas, terças e sextas-feiras das 19h às 20h30, no Centro de Orientação aos Estrangeiros de Minokamo. A única taxa cobrada é a anuidade no valor de 3.000. Informações pelo telefone: 090-3252-3439 (Alina).

MENSAGENS

Para quem está no shoogakoo aconselho que supere as dificuldades passo a passo e com calma. As aulas começam a ficar mais interessantes quando aprendemos uma coisa de cada vez. Se tiver dúvidas, pergunte e não vá embora para casa com elas na cabeça. Alguns professores explicam de maneira mais fácil, outros nem tanto. Então procure aqueles que ensinam da forma como você consegue aprender mais. Thaís Yukari Kishimoto, 15 anos, aluna do 1º ano do chuugakoo (ensino fundamental).

Se a criança não tem uma boa base no shoogakoo fica difícil de acompanhar o chuugakoo e o kookoo. Por isso devem aproveitar enquanto estão no primário para construir uma boa base. Na matemática, por exemplo, se um aluno não consegue fazer cálculos básicos, no chuugakoo é praticamente impossível acompanhar. O conhecimento básico é muito importante. Sandra Mika Yamaguchi Aya, 15 anos, aluna do 1º ano do chuugakoo (ensino fundamental).

Com as dificuldades que tinha há alguns anos pensava em parar de estudar e apenas trabalhar. Hoje tenho planos de ir para a faculdade. Não podemos desistir diante delas. Vamos nos esforçar porque em cima desse esforço as portas se abrem, aparecem opções e novos caminhos e dentro deles, sonhos que podem ser realizados. Alexandra Mika Yamaguchi Aya, 17 anos, estudante do 2º do kookoo (ensino médio).

Sei que as dificuldades existem e são muitas. Nesses momentos precisamos do apoio dos pais para persistir e continuar. Hoje, posso olhar para trás e dizer que tudo o que fizeram por mim e tudo o que passei valeram a pena. Nunca devemos desistir.Nayara Natsumi Kinjo, 18 anos, estudante do 2º ano de Serviço Social (ensino superior).

É preciso ter consciência de que por estrangeiro existe a necessidade de estudar duas ou três vezes mais que um japonês. Façam muitas amizades para aprender a língua japonesa e conviva com a cultura do Japão. Quando tiver dúvidas e desconhecimento procure esses amigos para lhe ajudar. No futuro, conviva na sociedade sem nunca esquecer a cultura e língua materna. Takeshi Kamiya, 28 anos, professor responsável pelo Caed.

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