ALESSANDRA BARBIERI (IPC Digital) – Já escrevi nesta coluna sobre as surpresas “linguísticas” que tive quando cheguei no Japão. Mas, depois de já ter passado algum tempo por aqui, deparei-me com uma situação ainda mais interessante: é possível desaprender um idioma.

O português é um dos idiomas mais difíceis de se aprender. Ainda hoje, na escola, aprendemos (e ensinamos) pessoas e tempos verbais que jamais serão utilizados. Pedir a um aluno que conjugue um verbo nas pessoas “tu” e “vós” é considerado quase um castigo nos tempos modernos. No meu tempo, eu já considerava assim e, confesso, até hoje tenho dificuldades com algumas “pessoas” e alguns tempos verbais.

Nesse contexto, fica fácil perceber que, quando um brasileiro se torna residente de outro país, ele vai, aos poucos, “desaprendendo” essas particularidades da língua materna e assimilando alguns termos estrangeiros repetidos no seu cotidiano. Por algumas vezes eu me peguei escrevendo palavras erradas, em português! E olha que trabalho com isso todos os dias. Imagine quem não tem essa necessidade?

É claro que não estou falando de comunicação. A comunicação pode ser feita até por mímica e, dificilmente, uma pessoa “desaprende” a se comunicar no próprio idioma. Ela sempre será capaz de se fazer entender no idioma nativo. Mas isso não é preservar a língua, certo?

Não podemos achar normal “desaprender” o idioma nativo. Neste caso, diferentemente do “como andar de bicicleta”, devemos praticar e exercitar a língua todos os dias. O conhecimento que foi adquirido deve ser preservado e, para isso, é melhor que se evite esses 5 passos:

1. Deixe de ler no seu idioma

A leitura é a grande responsável pela boa prática de qualquer língua. Ler no seu idioma de origem é fundamental para que você conserve o aprendizado que acumulou durante anos, praticando e exercitando a sua língua materna. Procure jornais, revistas e, principalmente, bons livros em português. Ler somente na internet também não é uma boa prática porque, infelizmente, a internet é uma fonte inesgotável de experimentos duvidosos.

Porém, não é necessário ler um livro extenso, volumoso, cheio de palavras desconhecidas e incompreensíveis. Basta que ele seja interessante e que você consiga ler, pelo menos, uma ou duas páginas por dia.

2. Deixe de falar no seu idioma

Algumas pessoas preferem abolir o idioma materno do cotidiano familiar, para aprender o idioma estrangeiro mais rapidamente. A imersão em outra língua pode ser importante para o aprendizado, mas pode trazer um prejuízo enorme para a língua materna, caso a imersão seja muito longa.

Procure falar português em casa, com os amigos, ensinar os filhos quando voltam da escola japonesa, preservar a cultura brasileira nos pequenos costumes, nas festividades, etc. Muitos japoneses que imigraram para o Brasil tiveram esse cuidado e garantiram à geração imediatamente posterior, uma familiaridade muito grande com o nihongo. Isso ajudou muitos dekasséguis quando chegaram aqui. Façamos o mesmo por nossos filhos.

3. Não ouça músicas no seu idioma

Muitos vão concordar que o melhor método para se aprender um idioma é ouvindo músicas naquela língua. Existem até alguns cursos cujo material é baseado em canções. Porém, muitos vão concordar também, o Brasil de hoje não está muito bem servido de exemplos que possam ser ouvidos com essa finalidade.

Sem nenhum preconceito contra qualquer gênero, existem aberrações circulando por aí, que eu nem teria coragem de chamar de música, e que prestam um desserviço ao idioma. Portanto, para preservar o bom português, ouça música de verdade. Daquelas que as frases têm começo, meio e fim. E que não sejam apenas um punhado de grunhidos desconexos que não servem para muito mais do que um chacoalhar de ossos.

4. Não tente entender a origem e o significado das palavras do seu idioma

Não é preciso andar agarrado com um dicionário o tempo todo. Mas saber o significado e a origem de algumas palavras, ajuda muito na fixação. Além do mais, na maioria das vezes, é até engraçado saber que uma palavra derivou de outra completamente inusitada. E pode ter vindo até mesmo de um outro idioma, como no clássico exemplo da palavra forró! De onde vieram expressões como “cuspido e escarrado”, “bicho-carpinteiro” e “cor de burro quando foge”?

Leia sobre o assunto. Descubra mais curiosidades sobre o seu idioma. Conte aos amigos, aos filhos. Passe a cultura para frente, não guarde o conhecimento.

5. Não se importe quando alguém falar ou escrever errado no seu idioma

Eu sei. É pedante, chato e arrogante corrigir alguém quando está falando ou escrevendo algo errado. Mas não é necessário que você grite aos quatro ventos o erro do seu colega, do seu filho, do seu companheiro. Você mesmo pode estar cometendo vários erros e não gostaria que alguém os apontasse para diminui-lo em público. Não estou fazendo campanha para esse tipo de “amigo”.

Basta que se faça a correção, discretamente, apenas para quem errou. Essa postura demonstra que você se importa com a pessoa e não quer vê-la errando novamente. Seja um professor e não um “apontador de erros”. A intenção aqui é a de ajudar o seu próximo a preservar a língua e não a de enaltecer o seu próprio conhecimento. Quem faz isso só quer aparecer e não ajudar.

Concluindo o pensamento, use o bom senso, seja gentil, discreto e, principalmente, útil na preservação da sua história. Não permita, ao menos passivamente, que o seu idioma seja esquecido, aviltado, violado, adulterado.

É possível fazer a nossa parte, falando, escrevendo e procurando melhorar sempre no domínio do nosso idioma materno.

Muito se fala em propagar e preservar a cultura brasileira, mas pouco valor se dá à preservação do idioma, que também faz parte da cultura de um povo.

*Os artigos aqui publicados são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, as opiniões do Portal IPC Digital.

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