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Nem clientes, nem acionistas. Foco dos empresários deve ser a felicidade de sua equipe

Alessandra Barbieri2015 / 11 / 06

ALESSANDRA BARBIERI (IPC Digital) – “Se este bilionário de 83 anos estiver certo, uma das lições mais importantes das escolas de negócios está bastante errada”. Essa foi a frase que introduziu a matéria que li hoje no Japan Times, sobre a história deste empreendedor japonês chamado Kazuo Inamori.

A lição mais importante das escolas de negócios a que se refere a nota, é aquela que mantém o foco de todas as ações estratégicas de crescimento em dois pontos, invariáveis: o cliente e os acionistas ou investidores.

Inamori, que é o fundador da Kyocera, empresário mais que bem sucedido, guru da administração e sacerdote budista, diz que os empresários devem esquecer esta lição e gastar o seu tempo e energia tentando fazer feliz a sua equipe, em primeiro lugar.

E ele deve ter razão, pois tem usado essa filosofia para fazer da Kyocera Corp. a maior indústria do ramo de eletrônicos, há mais de cinco décadas.

“Se você quiser ovos, deve cuidar das galinhas”, disse Inamori em uma entrevista no mês passado. “Se você intimidar ou estressar a galinha, não vai funcionar.” Parece óbvio, mas essa postura é muito criticada no mundo dos negócios. Normalmente, pelos acionistas, claro.

Durante muitos anos, enquanto trabalhava como funcionária contratada em algumas empresas, eu costumava questionar isso. Do meu ponto de vista “funcional”, nunca concordei com o posicionamento de alguns patrões que não entendiam a essência da palavra “líder”, e se contentavam em exercer apenas a insípida função de chefe.

Na minha experiência profissional, tive muitos chefes e poucos líderes! Sou grata aos poucos que tive a felicidade de encontrar, pois foram eles que conseguiram extrair de mim o melhor da minha capacidade produtiva.

Vez ou outra, quando o meu chefe era nada além disso, minha capacidade produtiva ficava exatamente na linha da mediocridade de quem me chefiava. E isso me fazia muito mal. Não só pela sensação de estar sendo explorada mas, principalmente, pela sensação de estar sendo mal aproveitada.

Isso é bem pior, porque você não se sente em condições de fazer a empresa crescer, ou seja, você não é um colaborador, mas apenas um executor de tarefas. Quando um empresário percebe que o grande capital aplicado na empresa não é o material mas sim o humano, ah… isso não tem preço!

Não estou dizendo, com isso, que o investimento material deva ser desprezado ou preterido. Por óbvio que não. Porém, quando a captação de recursos materiais tem mais valor numa empresa do que a captação (e manutenção) dos recursos humanos, o ambiente de trabalho se torna hostil. E aí, bem… aí você transforma um potencial colaborador, num essencial mercenário. Na primeira oportunidade, a sua mão de obra te deixa “na mão”.

E isso nem é inteligente pois, com essa rotatividade, o empresário tem muito mais custo. Novos funcionários, nova necessidade de treinamento, desgaste da equipe, baixa produtividade. Um ciclo nocivo que acaba criando obstáculos ao crescimento da própria empresa.

Quando Inamori foi nomeado executivo-chefe da Japan Airlines, em 2010, aos 77 anos, ele não tinha nenhuma experiência no ramo. No ano seguinte, ele recuperou os lucros e salvou a empresa da falência. Em 2012, a Japan Airlines voltou à bolsa de valores de Tóquio.

“Os líderes da empresa devem procurar fazer com que todos os seus funcionários estejam felizes, tanto material como intelectualmente”, diz Inamori. “Esse deve ser o seu propósito. Não deve ser o de trabalhar para os acionistas. ”

E o que é “fazer a equipe feliz”? Quando Inamori fala em fazer os funcionários felizes, ele não quer dizer que eles devam ter menos trabalho. Seu conceito de felicidade vem de trabalhar duro. Em um de seus livros, editado em 2004, ele questiona a crescente tendência dos japoneses em valorizar o tempo de lazer.

A felicidade dos colaboradores não está somente em ser remunerado de forma proporcional ao volume de trabalho. Está também em ser percebido como ser humano, com necessidades materiais e emocionais. Está em poder fazer parte do processo, crescer quando a empresa cresce, receber o reconhecimento da família, dos colegas e da sociedade como peça fundamental da engrenagem.

“As empresas pertencem aos acionistas, mas centenas ou milhares de funcionários também estão envolvidos”, disse Inamori. “A galinha tem que ser saudável.”

Aos meus ex-líderes, que muito contribuíram para o meu crescimento pessoal e profissional, registro a minha gratidão e o meu desejo de que muitos outros liderados passem pelos seus caminhos. Já aos meus ex-chefes ficam os votos de que possam, um dia, entender a diferença entre manter a galinha saudável e matar a galinha de sede.

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