Um brasileiro e um japonês que dialogam com todo o planeta

Um brasileiro e um japonês que dialogam com todo o planeta

Marcelo Maio2016 / 02 / 24

MARCELO MAIO (IPC Digital) – Fala-se às vezes que já não há mais talento no mundo. A sociedade atual já não seria mais capaz de produzir um Shakespeare, um Mozart, um da Vinci, um Dostoievski… Hoje, as pessoas só estariam voltadas para seus smartphones, suas vidas sem significado, seus trabalhos, fechadas em seus umbigos, destituídas de senso estético e espírito artístico. Para mim, porém, trata-se de uma análise impossível.

Um gênio precisa de tempo. Não de tempo para constituir-se como tal, mas para assim ser legitimado. Ainda que a pessoa já nasça provida de todas as qualidades necessárias para ser um grande artista, ela precisará que outros sujeitos, com o passar do tempo, a considerem efetivamente um importante nome da pintura, da música, da literatura…

Dos artistas que, atualmente, consideramos clássicos, poucos são aqueles que, enquanto vivos, tiveram o mesmo reconhecimento que receberam anos depois. Por muito tempo – ouso dizer que, hoje, menos –, essa legitimação vinha, acima de tudo, de um seleto grupo, de uma dita elite intelectual, que avaliava o que era bom e o que era ruim, o que merecia ou não prosseguir à posteridade.

Àqueles que dizem que não se vê mais artista de qualidade hoje em dia, eu poderia citar alguns nomes que, com sorte, serão altamente considerados no futuro. Entretanto, como esse é um portal para a comunidade brasileira no Japão, acho que nada mais justo que enumerar um brasileiro e um japonês – ambos com algo em comum.

Kenzaburō Ōe e Cristóvão Tezza são dois escritores que provavelmente nunca escutaram um sobre o outro. Se falo deles agora, é porque me parece incrível que duas obras de pessoas tão distantes tenham conteúdos emocionais tão próximos.

Kenzaburō Ōe, Nobel de Literatura em 1994, nasceu em 1935, em uma área que hoje se refere a Ehime. Cristóvão Tezza nasceu em 1952, em Lages, Santa Catarina, mas aos oito anos se mudou para Curitiba, onde mora até os dias atuais.

Dois escritores vivos, muito distantes um do outro, e, se ambas as idades os segregam do que pode ser considerada uma “nova geração”, nós não podemos excluí-los de um rol de talentosos escritores que as últimas décadas nos propiciaram. Ademais, a grande obra-prima de Tezza veio só em 2007: “O filho eterno”. Já o livro mais conhecido de Kenzaburō Ōe é um pouco mais antigo: “Uma questão pessoal”, de 1964.

“O filho eterno” e “Uma questão pessoal” tratam de dois homens com um quê de apáticos, meio descontentes com a vida, cujas esposas engravidam. Os filhos nascem com deficiência – no caso do brasileiro, com Síndrome de Down; o japonês, com hidrocefalia.

As primeiras reações de ambos os protagonistas são péssimas: pensam e planejam as coisas mais cruéis para se livrarem dos meninos. Dificilmente, o leitor não se sentirá incomodado ao ler os terríveis sentimentos dos dois homens. Mas a graça da coisa é como tudo vai se modulando perfeitamente, como as peças vão se encaixando aos poucos.

No caso de Cristóvão Tezza, trata-se de um livro muito confessional, com um caráter fortemente autobiográfico – ele realmente teve um filho com Síndrome de Down. Sua obra ganhou inúmeros prêmios, com destaque para um concedido pela Associação Francesa de Psiquiatria.

Cristóvão Tezza e Kenzaburō Ōe: dois grandes nomes da literatura contemporânea, dois escritores tão distantes geográfica e culturalmente, mas que, ao escreverem, conseguiram criar personagens e realidades críveis para todo o planeta. Duas provas vivas de que ainda há tanto talento para ser descoberto e tanta beleza para ser representada.

*Os artigos aqui publicados são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, as opiniões do Portal IPC Digital.

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