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Foi trabalhar no Japão e ficou rico!

Marcio Ikuno2015 / 08 / 01

MARCIO IKUNO (IPC Digital) – Presenciei muitos comentários no Brasil, pessoas dizendo: “fulano foi trabalhar no Japão pra ficar rico”, “agora que ele está no Japão, está nadando no dinheiro!”, “Voltou do Japão e comprou uma casa!”, e assim por diante.

Vê-se que, segundo o entendimento popular, o Japão proporciona muito dinheiro, dinheiro fácil e rápido. Mas o fato é que não é fácil e muito menos rápido, uma vez que o custo de vida também é alto.

Trabalhar no Japão, assim como muitos trabalhos em qualquer lugar do mundo, é estressante. Por outro lado, o salário é devidamente merecido. Mas há diferenças sensíveis para um trabalhador em sua terra natal e em uma terra distante.

Portanto, antes de soltar comentários dessa estirpe para o sujeito que comprou um carro ao voltar do Japão, pense o seguinte, que ele/ela:

Ficou longe da família

Os pais, irmãos, primos, esposa (geralmente os maridos são os que vão), filhos, avôs e outros membros da família provavelmente ficaram no Brasil. Enfrentou a saudade, a solidão, a tristeza, para que, em algum momento dentro de sua meta, conseguisse o recurso necessário para desenvolver seus projetos de vida.

Deixou os amigos para trás

Imagine aquele final de sexta-feira estressante, quando você sai do trabalho cansado e, para relaxar, chama os amigos para comer uma pizza, tomar uns drinks e dar muitas risadas. Pois é, ele(a) não teve isso. Os amigos que fez lá possivelmente não folgavam no mesmo dia de seu yasumi (folga). Então ele(a) “curtia” sozinho.

Passou pelo estresse da língua

Se você nunca morou fora, será um pouco difícil de “internalizar” a situação, mas é um sentimento de impotência. Querer falar e não conseguir, querer entender, mas tudo, absolutamente tudo é ininteligível. Ler então, nem pensar. Receber uma carta do banco, mas não saber minimamente do que se trata, receber um comunicado da prefeitura sobre algo importante e não entender. Tentar saber se a loja estará aberta ou fechada em determinado dia. Entre outras situações cuja língua é essencial para prosseguir no dia a dia.

Trabalhou horas e horas por dia

Os países orientais têm a fama de possuir uma jornada de trabalho longa. Longa o suficiente para ser passível de ações judiciais se fosse em terras ocidentais. O horário de almoço geralmente é menos de uma hora, toda produção é desenvolvida em pé e as regras internas são rigorosas o suficiente para gerar estresse. Você pode contestar dizendo que, no Brasil, sua jornada é quase igual. Mas a diferença é que você está no seu país, com seus amigos, sua família e tudo “no jeito”.

Passou por momentos de solidão extrema

Há muitos casos de trabalhadores brasileiros no Japão que entraram em depressão profunda por conta da solidão. Voltaram porque ficaram com distúrbios psiquiátricos latentes. Alguns até cometeram suicídio. Essas pessoas não suportaram as pressões supracitadas.

Enfrentou climas extremos

Pode parecer bobeira, mas há pessoas que gostam do calor e outras que gostam do frio. No Japão, o verão é muito quente. É abafado, úmido e irritantemente calor. Nesse ano, por exemplo, houve lugares que chegou a atingir os 40 graus! Imagine se a pessoa não gosta de calor, certamente sua paciência estaria perto do limite. No inverno, a temperatura chega a ser abaixo de zero. O sentimento de irritação é o mesmo.

Além desses, ainda poderia pontuar muitos outros. Não é à toa que, geralmente, os dekasseguis ficam irritados quando terceiros fazem comentários sobre suas posses e questões monetárias. Afinal, ele trabalhou muito, enfrentou muita coisa para conseguir o que conseguiu.

Aliás, depois que ele(a) volta para o Brasil, passa, então, pelo medo estressante de ser roubado(a), sequestrado(a) ou até mesmo morto(a) pelos seus bens, que, com muito suor, foram conquistados.

Depois de tudo isso ainda, ele(a) não está rico. Conquistou somente os recursos necessários.

Pense nisso!

*Os artigos aqui publicados são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, as opiniões do Portal IPC Digital.

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