Alertas de emergência no Japão deveriam ser emitidos também em português?

Nacionalpor Paulo Sakamoto - 20/09/2015
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Crédito: Divulgação

blog-pauloA publicação de uma matéria no The Japan Times, sobre os brasileiros afetados pela enchente sem precedentes da cidade de Joso, Ibaraki, iniciou uma discussão nas redes sociais do jornal (em inglês) sobre a necessidade de se traduzir os alertas de emergência e avisos de evacuação em regiões com grande concentração de estrangeiros.

Enquanto uns defendiam a necessidade de se aprender o idioma japonês como regra básica para sobreviver em casos de desastres naturais, outros diziam que as pessoas que não compreendem bem o idioma não poderiam ficar à mercê de sua falta de conhecimento da língua em uma situação de vida ou morte.

Indignação dos brasileiros de Joso

Segundo o brasileiro David Shibata, morador de Joso, se os avisos emitidos pelos alto-falantes da cidade fossem traduzidos para outros idiomas, além do japonês, muito sofrimento teria sido evitado naquele dia trágico. “Não entendia uma palavra do que estava sendo dito”, disse o brasileiro ao The Japan Times. “Os japoneses tiveram muito tempo para escapar (pois entenderam os aviso), mas eu e meus amigos não tivemos muito tempo porque não estávamos entendendo. Pensei que íamos morrer”, desabafou David, que teve que lutar contra a correnteza para manter a cabeça fora da água.

Alex Sakaue, um outro brasileiro residente de Joso, que fala japonês fluente, também mostrou indignação com a falta de uma mensagem de emergência em português. “A cidade sabe que há muitos brasileiros que moram nessa região e que muitos não entendem bem o japonês. A cidade deveria ter a decência de emitir avisos pré-gravados em português para que nós pudéssemos saber para onde ir”, disse Alex ao repórter do TJT. “Estou furioso”, acrescentou.

A enchente de Joso pode ter sido o desastre natural que mais impactou diretamente a comunidade brasileira no Japão desde o terremoto de Kobe, com cerca de 200 compatriotas desabrigados ou desalojados, segundo o Consulado Geral do Brasil em Tóquio. Na cidade de 65 mil habitantes, moram 3.931 estrangeiros, dos quais quase metade são brasileiros. Com uma comunidade estrangeira tão vibrante, não seria prudente o governo local emitir avisos de evacuação em outros idiomas, além do japonês?

Estamos preparados?

Embora o governo local mereça elogios por disponibilizar na internet 18 cartilhas de instruções e mapas (em português) sobre riscos de inundações e locais de evacuação, os alertas emergenciais, emitidos através de mensagens de celular e alto-falantes, não são tratados com a mesma acessibilidade. A prefeitura de Joso disponibiliza na internet um infográfico em português que ilustra como os avisos de emergência são divulgados, mas o aviso em si não é traduzido. No entanto, a resposta da prefeitura após a enchente foi elogiada por alguns brasileiros entrevistados por um programa matinal da TV Fuji.

No Japão, de modo geral, os avisos de emergência são de responsabilidade dos governos locais. O governo central, através da Agência Meteorológica e de outros orgãos públicos, envia as informações para as prefeituras, que decidem a forma como irão transmitir os avisos para a população. Os avisos pelo rádio e TV são os únicos padronizados a nível nacional.

O relato de alguns brasileiros de Joso, que se viram desamparados em uma situação de emergência, levanta uma questão: Estamos preparados para uma emergência de maiores proporções, como uma erupção do Monte Fuji, um grande terremoto ou tsunami? Se um alerta de emergência for emitido pelos alto-falantes do seu bairro, você entenderia a mensagem? Saberia o que fazer? Tais mensagens muitas vezes são incompreensíveis até mesmo para quem entende a língua.

Alguns comentários na página da matéria – postados por estrangeiros residentes no Japão – diziam que um aviso de emergência em português seria um “privilégio desnecessário” para os brasileiros. Dada a importância econômica da comunidade brasileira em algumas cidades do interior do Japão, as palavras de David Shibata poderiam justificar um cuidado maior para salvar a vida dos contribuintes estrangeiros: “Precisam nos levar mais a sério (…) Pagamos impostos assim como os japoneses.”

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