Brasileira revela detalhes sobre morar num Abrigo para mães solteiras ou violentadas no Japão

Nacionalpor Rachel Matos - 25/06/2015
violencia
Crédito: Divulgação

 TÓQUIO (IPC Digital) – O Japão possui um serviço de acolhimento às mulheres que sofrem com problemas de violência doméstica, dificuldades em criar os filhos por problemas financeiros, sendo solteira, entre outros motivos.

Tomar a decisão de buscar este recurso público não é fácil. Primeiro é preciso reconhecer os dolorosos problemas e a situação de vulnerabilidade que mulher e filhos estão passando, depois encarar os desafios de separação das pessoas que estão causando sofrimentos (se este for o caso), o que pode trazer ainda mais violência. Isso gera medo e dúvidas, principalmente em relação ao futuro.

Foi pensando em muitas mães estrangeiras que vivem no Japão, em situação de vulnerabilidade e sofrimento com seus filhos que uma brasileira que reside no país há 17 anos, ofereceu o seu depoimento de apoio e esclarecimento, visando incentivá-las a buscar ajuda.

Durante 3 anos ela morou num abrigo para mães solteiras. Na época em que foi para lá, ela tinha uma filha de quase 4 anos e estava grávida de 7 meses. Hoje, faz 1 ano em que ela saiu do abrigo.

Essa mãe, gentilmente, ofereceu informações para as pessoas interessadas e necessitadas. Acompanhe o diálogo:

– Para quem exatamente serve o Abrigo?

Mãe: O abrigo é um lugar exclusivo para crianças que estejam sofrendo de abuso sexual e suas mães; mulheres que estejam sofrendo de violência doméstica; mães solteiras, com dificuldades financeiras e crianças em extrema pobreza.

– Como proceder para buscar ajuda de um Abrigo?

Mãe: Para conseguir vaga e ajuda de um Abrigo é preciso ir até a prefeitura da sua cidade e buscar os responsáveis pelo sistema. Para pedir ajuda neste caso, deve-se falar em japonês: “母子生活支援施設 – boshi seikatsu shien shisetsu”.

Eu fui no setor da criança ” 子供家庭科 – kodomo kateika” e lá conversei com o diretor do setor junto com mais outras pessoas.

Fizeram várias perguntas e muitas vezes repetiram as mesmas perguntas para ver se eu não caia em contradições. Foi um pouco cansativo, porém, creio ter sido necessário todo este procedimento para o meu amadurecimento e clareza para eles.

Depois de tanta insistência da minha parte dizendo que eu não voltaria para casa e que “eu estava com as minhas malas lá mesmo”, eles me encaminharam para um abrigo onde fiquei 1 semana até prepararem os documentos oficiais e o local para onde eu iria de fato.

– Como é a vida dentro de um Abrigo?

Mãe: Geralmente eles são cercados, tem câmeras, horários para sair e entrar e é vigiado 24 horas.

Todas as pessoas que trabalham lá dão total auxílio para as mães e os filhos. Ajudam no que for precisar, até sair do abrigo e fazer algumas compras necessárias, em caso de você não poder ou estar com medo de sair.

Elas auxiliam nas idas ao médico (especialmente às gravidas), nos processos de divórcio e articulações com advogados.

No resguardo ajudam a fazer comida e a limpar o apartamento caso você precise.

– Como são as regras e regulamentos para quem mora num Abrigo?

Mãe: No abrigo que fiquei o sistema era assim: tinha hora para sair de manhã e de noite. De segunda a quinta feira o portão fechava às 21 horas e de sexta a domingo às 22hrs. Mas geralmente elas pediam para que chegássemos antes de escurecer. Há um temor e cuidado com a segurança da mulher e seu filho e uma preservação da rotina infantil.

Elas não dizem o horário que você tem que dormir e acordar, porém, de acordo com a cultura japonesa, elas tendem a sugerir um horário para dormir e acordar. Sugerem também fazer exercícios, arrumar e limpar o quarto, estudar, procurar emprego e ocupar a mente.

Ao sair de casa, precisávamos entregar a chave do apartamento e dizer onde iríamos e o horário que talvez voltaríamos. E tudo fica anotado para controle do Abrigo.

Depois de um certo tempo residindo no Abrigo é possível passar uma noite fora. Aí é preciso preencher um documento, registrando em qual casa vai, um telefone de contato e quantos dia ficará. É possível dormir na casa de amigos ou famílias, mas jamais na casa de homens (como namorados, etc.).

No abrigo não era possível receber visitas livremente, apenas mulheres da família e só se tiver motivos, por exemplo: se o neném nasceu ou se você está no resguardo e sua mãe ou irmã quer vir te ajudar, entre outros.

Amigas não entram.

Cada mamãe fica em seu apartamento e ninguém entra sem a sua permissão!

O apartamento que eu fiquei tinha 2 quartos, sala e cozinha. Era um apartamento grande. Eu não pagava aluguel, apenas água, luz e gás!

Elas emprestam tudo que você precisar, caso tenha levado somente roupa, depois de “fugir de casa” em busca de acolhimento.

– Como administrar trabalho, escola dos filhos e vida no Abrigo?

Mãe: Morando no abrigo você pode trabalhar normalmente, mas até 4 horas por dia. As crianças vão para a escola ou para a creche.

As funcionárias do Abrigo ajudam as mulheres a administrarem seu dinheiro, ajudando-a a guardar e a planejar a vida fora de lá.

– Qual é o limite para estadia?

Mãe: O limite da estadia é de 3 anos, mas tem mães que saem antes.

As mães e as crianças só sairão de lá depois que estiverem seguras e com reserva de dinheiro, de modo com que consiga se manter sozinha sem ajuda do Abrigo, tanto financeira como psicologicamente.

Para sair você passará por uma avaliação. Dependendo do caso pode haver uma renovação de contrato de estadia e estender um pouco mais o prazo!

– Quais as atividades sociais, educativas e recreativas são desenvolvidas dentro do Abrigo?

Mãe: Lá dentro existem diversas atividades: culinária, passeios e comemoração de datas festivas como o Natal.

As crianças têm acompanhamento com uma professora para auxiliar nos estudos caso esteja em fase escolar.

Geralmente nos abrigos tem 1 apartamento que é comunitário, onde tem televisão, vídeos, livros e muitos brinquedos.

Este também é um lugar para reunir as mães e fazer reuniões mensais para falar sobre as atividades do mês. Nesse dia, após a reunião, elas entram em todos os apartamentos para fazer uma checagem (spray de incêndio, lanterna, etc.).

– O que esta experiência representou para você como mulher e mãe?

Mãe: Eu morei lá por 3 anos, aprendi mais o japonês, fiz amizades com japonesas que mantenho até hoje e não me arrependo de ter ido para o abrigo. Foi a melhor escolha que fiz.

Optei por isso, foi onde aprendi a dar mais valor a mim mesma e aos meus filhos, onde cresci como mulher e mãe, amadureci minhas ideias e pensamentos e revi meus conceitos!

Eu escolhi dar proteção para meus filhos e uma vida melhor, mais digna, abri mão de muita coisa que “achava” ser importante para mim e com o tempo percebi que não era.

Importante mesmo é o bem-estar e a segurança dos nossos filhos. O resto é resto!

Para as mães no Japão que precisam de ajuda, sintam-se encorajadas a buscar auxilio. Existem diversas formas de receber apoio.

Se tiverem dúvidas, entre em contato com a rede de psicólogos do SABJA – o Serviço de Assistência aos Brasileiros no Japão no telefone: 050-68616400.

Este é um depoimento de uma experiência individual. Alguns detalhes sobre o Abrigo podem sofrer alterações dependendo da prefeitura.

FONTE: SOS MAMAES NO JAPÃO

 

 

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