Conselho de Cidadãos de Tóquio decreta: acabou a era decasségui

Nacionalpor Marcelo Maio - 03/10/2015
Conselho de Cidadãos de Tóquio decreta: acabou a era decasségui
Crédito: Divulgação

YOKOHAMA (IPC Digital) – O Conselho de Cidadãos de Tóquio se reuniu em Yokohama, nesse sábado (3), e aprovou um importante documento intitulado “Declaração de Yokohama”.

A declaração proclama o fim da era decasségui. Agora, a ideia é enviar esse documento para os governos do Brasil e do Japão. Sua íntegra pode ser conferida abaixo:

Declaração de Yokohama

“Acabou a era decasségui – Escolhemos ficar no Japão”

Completaram-se, em junho deste ano, exatos 25 anos desde a implementação da reforma na Lei da Imigração Japonesa, que entrou em vigor em junho de 1990.

Como se sabe, esta Lei permitiu que os estrangeiros “nikkeis” (descendentes de japoneses) entrassem no Japão com vistos que não previam limitações no tipo de atividade exercida. Essas atividades poderiam incluir a visita aos parentes e, eventualmente, exercer trabalhos sem qualificação para custear a estadia no país.

Embora haja controvérsias sobre a intenção ou não do governo japonês em usar esta reforma legal para atrair nikkeis estrangeiros como mão-de-obra dos setores automobilístico e de eletroeletrônicos, entre outros, não há margem para dúvidas de que isto desencadeou uma onda migratória de sul-americanos – especialmente de brasileiros – para o Japão. E este fenômeno – assim como cada pessoa que aderiu a este movimento migratório – passou a ser denominado de “dekassegui” (e mais tarde, grafado como “decasségui” nos dicionários de língua portuguesa).

Como se sabe, a palavra “dekassegui” significa literalmente “sair para ganhar dinheiro” e costuma ser usada para denominar os trabalhadores temporários e sazonais, seja no âmbito doméstico ou transnacional. Além disso, este termo carrega uma conotação negativa, associando o indivíduo e/ou grupo a uma imagem de pobreza e falta de compromisso com o local onde foi trabalhar – no caso do migrante transnacional, o seu país de destino.

Decididamente, este não é o caso dos migrantes da rota Brasil-Japão. Hoje, 6 em cada 10 brasileiros no Japão já têm visto permanente. Muitos deles compraram casa no Japão. Um número significativo de brasileiros passou da posição de empregado para empregador de mão-de-obra, e outros tantos já exercem profissões que exigem qualificação. Empresas, lojas, serviços, escolas, organizações não-governamentais e veículos de comunicação fundados ou administrados por brasileiros floresceram nas mais diversas regiões do Japão.

A crise financeira global de 2008, seguida de uma demissão em massa dos brasileiros, poderia ter provocado o desmantelamento da comunidade brasileira no Japão. Não foi o que aconteceu. A maioria dos brasileiros escolheu ficar. O terremoto, tsunami e o pânico nuclear de Tohoku em 2011 também poderiam ter provocado um retorno em massa dos brasileiros. Mais uma vez, a maioria dos brasileiros escolheu ficar.

Ficar no Japão. Ser membro ativo desta sociedade. Contribuir para o desenvolvimento deste país. Foi esta a decisão consciente dos 175.410 brasileiros registrados pelo Ministério da Justiça (conforme as estatísticas de dezembro de 2014), sem contar outros tantos que não aparecem nas estatísticas por terem cidadania japonesa.

Os brasileiros que ficaram no Japão contribuem não apenas trabalhando, consumindo e pagando impostos. Querem fazer parte da corrente do がんばろう日本!“Gambaro Nippon!”. Prova disso é que, diante da tragédia de março de 2011, os brasileiros não ficaram de braços cruzados. Foram para Tohoku prestar ajuda e solidariedade em atividades voluntárias. O sentimento que uniu as pessoas foi este: “Escolhemos ficar aqui, fazemos parte desta sociedade.”

Por tudo isto, nós, brasileiros no Japão, gostaríamos de aproveitar o ensejo dos 25 anos da reforma na Lei de Imigração para decretar o fim da “Era dos dekasseguis/decasséguis”. E declarar oficialmente o início de uma nova era que, na prática, já começou há muito tempo: a era dos “brasileiros residentes no Japão”, cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres como membros da sociedade japonesa, sem perder os laços culturais e afetivos com o seu país de origem, Brasil.

Esta nossa declaração é, ao mesmo tempo, uma solicitação dirigida à população em geral, e em especial às autoridades relacionadas, para que colaborem na solução das diversas questões levantadas neste Painel. Pois nunca é demais frisar: “Escolhemos ficar!”

Yokohama, 3 de outubro de 2015.

Conselho de Cidadãos de Tóquio

 

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