Porquê você deve evitar de usar a “bandeira do sol nascente”

Nacionalpor Paulo Sakamoto - 23/07/2015
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Crédito: Divulgação

blog-pauloConcordo que ela é visualmente mais bonita do que a Hinomaru (bandeira branca com um círculo vermelho), e que é a bandeira mais usada em souvenirs e outros produtos vendidos para turistas estrangeiros que visitam o país, mas, será que a bandeira do sol nascente continua representando o Japão de hoje? Dependendo da sua interpretação dos fatos a seguir, deixar de usá-la pode ser uma questão de bom senso e respeito ao próprio Japão.

UM SÍMBOLO DA GUERRA

A bandeira do sol nascente (círculo vermelho com dezesseis listras que simbolizam os raios do sol) tornou-se a bandeira oficial do Exército do Japão em 1870, quando o imperador Meiji derrubou o feudalismo e abriu as portas do país para resto do mundo. Foi uma época de descobertas e prosperidade para o povo japonês que, até então, considerava os caucasianos como “animais selvagens”.

Nos anos seguintes, o Japão Imperial participou de uma série de conflitos militares, incluindo a Guerra Sino-Japonesa (1894-1895), a Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945), e a Guerra da Ásia-Pacífico (1941-1945).

Em todas as guerras, a bandeira do sol nascente era o estandarte dos militares japoneses durante as batalhas sangrentas, enquanto a Hinomaru era usada pelos soldados apenas como um amuleto de sorte. Quando uma cidade era conquistada, a bandeira militar era substituída pela Hinomaru, simbolizando que aquela cidade não era mais uma área de guerra e que a partir daquele momento, aquele território pertencia oficialmente ao Japão.

Durante a conquista da cidade chinesa de Nanjing, em 1937, a bandeira do sol nascente foi hasteada nos muros da cidade enquanto o exército imperial japonês cometia uma das maiores atrocidades da Segunda Guerra Mundial. O assassinato em massa de, possivelmente, centenas de milhares de pessoas, se tornou um símbolo da tirania do Japão Imperial e ainda é um tema controverso entre os dois países.

Para o povo japonês, que não tinha o conhecimento do que realmente se passava nos campos de batalha, a bandeira do sol nascente era um símbolo de resistência contra o ameaça da interferência estrangeira.

Após a derrota do Japão pelas Forças Aliadas comandadas pelos EUA, em 1945, o Tribunal Militar Internacional revelou com detalhes as atrocidades cometidas pelo exército japonês, incluindo o massacre de Nanjing. Finalmente, livres da censura, os jornais japoneses puderam publicar o que realmente aconteceu nos campos de batalha nas décadas de 1930 e 1940. Como consequência, a reputação dos militares no Japão despencou, e com ela, o orgulho e admiração pela bandeira do sol nascente.

O exército japonês foi desfeito e a bandeira no sol nascente foi banida pelo Tratado de São Francisco. Mas, dois anos após a Guerra da Coreia (1950-1953), as Forças de Autodefesa do Japão (que substituíram o exército imperial), adotaram uma versão da bandeira do sol nascente como emblema oficial.

UM SÍMBOLO EXTREMISTA

Apesar de seu uso militar oficial, a bandeira do sol nascente é frequentemente associada pelo povo japonês aos grupos extremistas de direita que, descaradamente, afirmam que a “Grande Guerra da Ásia Oriental”, nome oficial da Segunda Guerra Mundial, foi uma “batalha sagrada”.

Organizações racistas, como o grupo Zaitokukai, que pregam abertamente a expulsão dos estrangeiros do Japão e a morte de coreanos e chineses, acenam a bandeira do sol nascente em suas manifestações como símbolo de resistência contra a influência estrangeira. Esses grupos demonstram um novo nacionalismo no Japão, que nega a autoridade e a validade da constituição pós-guerra. Para eles, a palavra do imperador continua sendo a autoridade suprema do Japão.

O sentimento anti-guerra no Japão de hoje é tão grande, que poucas pessoas comuns se atrevem a usar a bandeira do sol nascente em eventos públicos. De fato, ela foi proibida em eventos esportivos oficiais internacionais por ser considerada “ofensiva” para muitos países que foram colonizados pelo Japão. Até mesmo no mundo dos games online, a controversa bandeira está sendo abolida.

Você pode argumentar dizendo que a bandeira do sol nascente é apenas um símbolo do passado japonês e que deixar de usá-la seria um exagero. Bem… para muitos coreanos, chineses e parentes de vítimas do imperialismo japonês do passado, os raios de sol vermelhos são tão ofensivos para eles quanto a suástica nazista é para os judeus.

De fato, além de ser um mero símbolo militar, a bandeira do sol nascente não representa nada do Japão pacífico e próspero dos dias atuais. Manifestações recentes contra a reforma da constituição pacifista do Japão mostraram que a grande maioria da população japonesa – velhos traumatizados pela guerra e jovens que aprenderam com as lições do passado – se recusam a aceitar a remota hipótese de o país entrar em uma guerra novamente. Em nenhum outro país há tantos “Museus da Paz” como no Japão.

*Os artigos aqui publicados são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, as opiniões do Portal IPC Digital.

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